quinta-feira, 17 de março de 2011

Em seu novo livro, Papa conta temores de Jesus como homem.

Percorrendo os novos capítulos e as perspectivas finais do novo livro de Joseph Ratzinger, "o leitor é conduzido por caminhos ascendentes até um emocionante encontro com Jesus, uma figura familiar que parece estar ainda mais próxima com sua humanidade, bem como com sua divindade".

O cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, comenta dessa forma o "Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição", assinado pelo Papa e apresentado na quinta-feira, no Vaticano, junto ao escritor e germanista Claudio Magris.


Mais de 300 páginas de "testemunho comovente, fascinante, libertador", tanto que, "finalizada a leitura - prosseguiu o cardeal - o desejo é de continuar o diálogo, não só com o autor, mas também com Aquele de que ele fala".

O segundo volume da trilogia - à qual ainda falta uma parte sobre a infância de Jesus -, que o teólogo Joseph Ratzinger dedica ao Nazareno, já é um bestseller, dado o grande interesse gerado desde a primeira edição - de 1.200.000 exemplares -, já esgotada.


Enquanto isso, para os amantes da tecnologia digital, chega também o e-book do livro, que, curiosamente, foi escrito por seu ilustre autor a lápis. Portanto, não é uma obra de magistério, mas uma análise histórico-teológica que Ratzinger não fecha à crítica e sobre a qual não reivindica a infalibilidade.


Reconhecendo o contributo fundamental de vários estudiosos das Sagradas Escrituras, o cardeal Ouellet afirmou, de fato, que é descoberta no livro do Papa Teólogo "a aurora de uma nova era da exegese", em que a comparação é possível e "frutífera".


O purpurado começa, depois, a analisar o conteúdo do livro, que sintetiza em algumas questões-chave, incluindo precisos "nós" a serem desfeitos necessariamente para poder levar ao centro da fé a Palavra de Deus: "Em primeiro lugar, a questão do fundamento histórico do cristianismo, que atravessa os dois volumes da obra", explica ele, admitindo que não se trata de uma enumeração exaustiva. Depois, o "messianismo de Jesus" e "expiação dos pecados por parte do Redentor".


Além disso, "o sacerdócio de Cristo em relação à sua realeza e seu sacrifício"; e, finalmente, "a questão da ressurreição de Jesus, sua relação com o corpo e seu vínculo com a fundação da Igreja".


Também o triestino Magris, entre os favoritos para o prêmio Nobel de Literatura, reconheceu como "interessante" que o Papa tenha recorrido ao método histórico, que, "além de ser científico, é propriamente cristão", na medida em que "Cristo entrou na história". Obviamente, um método desse tipo pressupõe limites, pois "não pode demonstrar que Jesus é o Filho de Deus", embora possa ser um método para aproximar-se da verdade.


Para Magris, esta obra de Ratzinger pode ser destinada a toda a humanidade, católicos ou não, crentes ou não: "Se o Papa tivesse nos falado sobre coisas distantes de nós, talvez não nos interessássemos; se o Cristo do Monte das Oliveiras tivesse sido um herói, um super-homem, eu teria pouca coisa para pedir-lhe, eu o sentiria distante; no máximo, poderia admirá-lo", confessou.


No entanto, Jesus, que vence a angústia não com um "milagre", mas por sua própria força e vontade, "pode ajudar cada um de nós também a lidar com situações não transcendentes, mas que marcam a vida cotidiana do homem, como as dores, as doenças e a perda dos entes queridos".


"A natureza humana de Jesus reluta, de fato, como toda natureza humana, diante do sofrimento, da morte, tem um medo abismal diante dela, que volta à alma, como Jesus diz explicitamente, triste a ponto de morrer". No entanto, o sofrimento do Nazareno não termina após os três dias, mas "continua até o final da redenção".


"E essa eternidade - explica Magris, citando o pensamento do grande teólogo jesuíta Karl Rahner - não é ‘a vida ultraterrena', uma ilimitada continuação do tempo em outro lugar, como um aposentado que se muda para outro país. A eternidade não é o tempo que continua sem fim, eliminando em um instante o anterior. A eternidade é a vida em sua epifania: a dor, a felicidade, o amor, sempre presentes; é o instante de Michelstaedter, vivido como se fosse o último."


"A expressão ‘vida eterna' - escreve Ratzinger em uma das mais belas páginas do livro - não é a vida que vem após a morte, enquanto a vida presente é passageira; a ‘vida eterna' significa a própria vida, que pode ser vivida também no tempo e que não é questionada pela morte física nunca mais. E isso é o que nos interessa: abraçar a vida desde agora, a verdadeira vida, que não pode ser destruída por nada nem por ninguém."

(Mariaelena Finessi)


Bento XVI enfrenta cinco questões disputadas em seu novo livro.


Bento XVI, ao apresentar uma interpretação da Sagrada Escritura que harmoniza análise histórica e fé, em seu livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” (Principia Editora), esclarece cinco “questões disputadas” sobre a vida de Cristo que ainda hoje provocam intensos debates entre teólogos e a própria opinião pública.


Foi o que explicou na tarde dessa quinta-feira o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos e relator do Sínodo sobre a Palavra de Deus (2008), ao apresentar a obra na Sala de Imprensa da Santa Sé.

O purpurado canadense reconheceu que, ao esclarecer essas questões disputadas, esta obra, que leva a firma de Joseph Ratzinger - Bento XVI, "terá um efeito libertador para estimular o amor pela Sagrada Escritura”.

Fundamento histórico

A primeira questão é o fundamento histórico do cristianismo. “Dado que o cristianismo é a religião do Verbo encarnado na história, para a Igreja é indispensável ater-se aos fatos e aos acontecimentos reais, precisamente porque eles contêm ‘mistérios’ que a teologia deve aprofundar, utilizando chaves de interpretação que pertencem ao domínio da fé”.

“Desta perspectiva, compreende-se o interesse do Papa pela exegese histórico-crítica, que ele conhece bem, e da qual tira o melhor, para aprofundar nos acontecimentos da Última Ceia, no significado da oração no Getsemani, na cronologia da paixão e, em particular, nas marcas históricas da Ressurreição”.

Jesus, um revolucionário?

A segunda questão afeta o messianismo de Jesus. “Alguns exegetas modernos fizeram de Jesus um revolucionário, um professor de moral, um profeta escatológico, um rabino idealista, um louco de Deus, um messias em certo sentido à imagem de seu intérprete, influenciado pelas ideologias dominantes”.

“A exposição de Bento XVI sobre este ponde está difundida e bem enraizada na tradição judaica”, afirmou. “Jesus declara diante do Sinédrio que é o Messias, esclarecendo a natureza exclusivamente religiosa do próprio messianismo. Por esse motivo, é condenado por blasfemo, pois se identificou com o Filho do Homem que vem sobre as nuvens do céu”.

O Papa sublinha que o objetivo do messianismo de Jesus é “instaurar o novo culto, a adoração em Espírito e Verdade, que envolve toda a existência pessoal e comunitária, como uma entrega de amor pela glorificação de Deus na carne”, indicou o prefeito da Congregação para os Bispos.

Expiação dos pecados

O terceiro debate esclarecido pelo Santo Padre afeta a “redenção e o lugar que nela deve ocupar a expiação dos pecados. O Papa enfrenta as objeções modernas a esta doutrina tradicional. Um Deus que exige um expiação infinita não é acaso um Deus cruel, cuja imagem é incompatível com nossa concepção de um Deus misericordioso?”

Para responder a essa pergunta, Ratzinger "demonstra como a misericórdia e a justiça se dão as mãos no contexto da Aliança querida por Deus. Um Deus que perdoa tudo sem se preocupar com a resposta que sua criatura tem de dar estaria tomando a sério a Aliança e sobretudo o horrível mal que envenena a história do mundo?”

Essas perguntas convidam “à reflexão e em primeiro lugar à conversão”. “Não é possível ter uma visão clara destas questões últimas permanecendo neutros ou se mantendo à distância. É necessário implicar a própria liberdade para descobrir o sentido profundo da Aliança, que justamente implica o compromisso da liberdade de cada pessoa”.

A conclusão de Bento XVI é que “o mistério da expiação não deve ser sacrificado por nenhum racionalismo prepotente”.

Sacerdócio de Cristo

Outra questão candente é a do sacerdócio de Cristo. “Segundo as categorias eclesiais de hoje, Jesus era um leigo revestido de uma vocação profética. Não pertencia à aristocracia do Templo e vivia à margem desta instituição fundamental para o povo de Israel. Este fato levou muitos a considerar a figura de Cristo como totalmente alheia e sem nenhuma relação com o sacerdócio. Bento XVI corrige esta interpretação, apoiando-se firmemente na Carta aos Hebreus, que fala amplamente do sacerdócio de Cristo”.

“O Papa responde às objeções históricas e críticas mostrando a coerência do sacerdócio novo de Jesus com o culto novo que veio a estabelecer na terra, obedecendo a vontade do Pai. O comentário da oração sacerdotal de Jesus é de uma grande profundidade e leva o leitor a horizontes que nunca pudera imaginar. A instituição da Eucaristia aparece neste contexto, com uma beleza luminosa que se reflete na vida da Igreja como seu fundamento e manancial perene de paz e alegria”.

Ressurreição

A última questão mencionada pelo cardeal Ouellet é a ressurreição. Bento XVI afirma que “a fé cristã tem sentido ou desfalece em virtude da verdade do testemunho segundo o qual Cristo ressuscitou dentre os mortos”.

“O Papa lança-se contra elucubrações exegéticas que declaram como compatíveis o anúncio da ressurreição de Cristo e a permanência de seu cadáver no sepulcro – explica Oullet –. Exclui estas absurdas teorias observando que o sepulcro vazio, se bem que não seja uma prova da ressurreição, da qual ninguém foi testemunha, fica como um sinal, um pressuposto, uma marca deixada na história por um acontecimento transcendente”.

A importância histórica da ressurreição se manifesta no testemunho das primeiras comunidades, que deram vida à tradição do domingo como sinal de identificação e pertença ao Senhor.

“Se se considera a importância que o sábado tem na tradição veterotestamentária, baseada no relato da criação e no Decálogo, torna-se evidente que só um acontecimento com uma força surpreendente poderia evocar a renúncia do sábado e sua substituição pelo primeiro dia da semana”, escreve o Papa.

Por isso, faz esta confissão: “Para mim, a celebração do Dia do Senhor, que distingue a comunidade cristã desde o início, é uma das provas mais fortes de que aconteceu uma coisa extraordinária nesse dia: a descoberta do sepulcro vazio e o encontro com o Senhor ressuscitado”.


Em seu novo livro, Bento XVI quer encontrar o “Jesus real”.


"Este é o primeiro livro de teologia que me transmite uma verdadeira emoção: tirou-me lágrimas”, confiava hoje um jornalista “vaticanista” italiano a seus colegas, após ter lido o segundo volume da obra de Bento XVI sobre Jesus, “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” (Principia Editora, Portugal).

Que método o Papa utiliza para alcançar tal resultado? Se bem que se trata de um livro de rigorosa pesquisa, chega a conclusões como esta: “A vitória do amor será a última palavra da história do mundo” (trad. livre, N. do T.).

Encontramo-nos ante uma exegese (a interpretação da Sagrada Escritura) que comunica a esperança de “encontrar Jesus e crer n’Ele”. Aplica as indicações do Concílio Vaticano II na “Dei Verbum” – não suficientemente exploradas –, e cita recentes publicações alemãs.

O Papa explica seu método no prólogo. Cita autores (dos quais faz rigorosamente referência em uma bibliografia abundante, ainda que não asfixiante”: Martin Hengel, Peter Stuhlmacher e Franz Mußner, os quais lhe “confirmaram explicitamente no projeto de avançar” neste trabalho e “de acabar a obra iniciada”: “um precioso alento”.

Evoca também o “Jesus” publicado em 2008 pelo que ele chama de “irmão ecumênico”, o teólogo protestante Joachim Ringleben. Sublinha que entre os dois livros há uma “profunda unidade na compreensão essencial da pessoa de Jesus e de sua mensagem”.

E acrescenta: “Se bem que com enfoques diferentes, é a mesma fé que atua, produzindo um encontro com o mesmo Senhor Jesus”. O Papa espera que ambas publicações possam constituir “um testemunho ecumênico que ao seu modo possa servir à missão fundamental comum dos cristãos”.

Cita também o livro de crítica bíblica de Marius Reiser, de 2007, do qual recolhe “indicações relevantes para as novas vias da exegese, sem abandonar a importância que sempre tem o método histórico-crítico”.

Harmonizar dois métodos de interpretação

O Papa, de fato, sublinha os frutos do método histórico-crítico, o estudo das Escrituras à luz das circunstâncias históricas. “Uma coisa me parece óbvia: em duzentos anos de trabalho exegético, a interpretação histórico-crítica já deu o que tinha de dar de essencial”.

Mas para que a exegese possa se renovar, o Papa considera que é necessário que dê “um passo metodologicamente novo, voltando a se reconhecer como disciplina teológica, sem renunciar a seu caráter histórico”.

Ele propõe passar de uma “hermenêutica positivista” a uma “hermenêutica da fé”, desenvolvida de maneira concreta”, de modo “conforme ao texto”, unindo-se a uma “hermenêutica histórica, consciente de seus próprios limites para formar uma totalidade metodológica”.

“Esta articulação entre dois gêneros de hermenêutica muito diferentes entre si é uma tarefa que há de se realizar sempre de novo”, afirma.

Um passo na direção adequada

Ele acrescenta que a harmonia entre “hermenêutica da fé” e “hermenêutica histórica” não só é possível, mas sobretudo fecunda: “por meio dela as grande intuições da exegese patrística poderão voltar a dar fruto em um contexto novo”, como consegue fazer precisamente Marius Reiser.

Modestamente, reconhece: "Não pretendo afirmar que em meu livro esteja já totalmente acabada esta integração das duas hermenêuticas. Mas espero ter dado um passo em tal direção. No fundo, trata-se de retomar finalmente os princípios metodológicos para a exegese formulados pelo Concílio Vaticano II (cf. “Dei Verbum” 12), uma tarefa em que, infelizmente, pouco ou nada se fez até agora”.

No mesmo prólogo, o Papa recorda que não quis escrever uma “Vida de Jesus”. O que busca, recorda citando o primeiro volume desta obra, é apresentar “a figura e a mensagem de Jesus”.

“Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, que eu queria encontrar o Jesus real”. O “Jesus histórico” que alguns teólogos e exegetas apresentam “é demasiado insignificante”, “está excessivamente ambientado no passado para dar boas possibilidades de uma relação com Ele”.

Com a hermenêutica da fé e a hermenêutica histórica, o Papa tentou “desenvolver um olhar para o Jesus dos Evangelhos, um ouvi-lo que pudesse se converter em um encontro; mas também na escuta em comunhão com os discípulos de Jesus de todos os tempos, chegar à certeza da figura realmente histórica de Jesus”.

O bispo de Roma reconhece que este objetivo era mais difícil no segundo volume, porque toca os momentos culminantes da morte e ressurreição.

“Tentei me manter à margem das possíveis controvérsias sobre muitos elementos particulares e refletir unicamente sobre as palavras e as ações essenciais de Jesus. E isso guiado pela hermenêutica da fé, mas tendo em conta ao mesmo tempo, com responsabilidade, a razão histórica, necessariamente incluída nesta mesma fé”.

“Ainda que sempre ficarão naturalmente detalhes a discutir, espero no entanto que tenha podido me aproximar da figura de Nosso Senhor de um modo que possa ser útil a todos os leitores que desejam se encontrar com Jesus e crer n’Ele”, conclui.

Talvez seja este encontro que tenha suscitado a “emoção profunda” do jornalista italiano.





Construir sobre o fundamento do amor.

Nesta entrevista, Dom Dal Toso fala sobre o futuro do dicastério e do trabalho caritativo da Igreja, assim como sua opinião sobre os atuais conflitos no norte da África e por que João Paulo II pode ser considerado um “Papa da caridade”.

ZENIT: Que o Conselho Pontifício pensa da situação de conflito que está transtornando o norte da África?

Dom Dal Toso: Para além das avaliações políticas, a Igreja já se mobilizou para auxiliar as vítimas desta autêntica emergência humanitária. Estou seguro de que esses povos, entre outras coisas graças ao apoio da comunidade internacional, conseguirão encontrar seu caminho. Mas, em geral, a formação integral do homem é o caminho que deve ser percorrido para cortar pela raiz estruturas que continuam gerando injustiça. Nisso a Igreja atua com um trabalho fundamental, quanto à formação das consciências mediante o Evangelho.

ZENIT: Depois da nomeação do cardeal Robert Sarah como novo presidente do Conselho Pontifício, que vem com anos de experiência no campo da Evangelização dos Povos, e também depois da nomeação de um novo subsecretário, quais são as prioridades da nova equipe?

Dom Dal Toso: Antes de tudo, continuidade, pelo caminho que indicou o Santo Padre. Para além das pessoas, importa a missão da Igreja. O Conselho Pontifício, portanto, não interromperá, mas favorecerá cada vez mais a difusão capilar da primeira encíclica de Bento XVI, “Deus caritas est”, na qual se delineia de modo claro, profundo e preciso, o trabalho de “Cor Unum” e dos organismos caritativos.

Em segundo lugar, fazer que “Cor Unum” possa ser um apoio para todas as organizações católicas de caridade, ser um verdadeiro ponto de referência na Santa Sé para todos aqueles que em nome da Igreja estão comprometidos em primeira linha para ajudar o próximo que se encontra em situação de necessidade. Isso significa também estar presente em nome do Santo Padre nas diferentes situações de emergência no mundo e onde quer que seja necessário levar uma mensagem de esperança e um apoio concreto.

ZENIT: O senhor acaba de regressar, junto ao cardeal Robert Sarah, de uma viagem a Burundi, onde inaugurou uma escola dedicada a Bento XVI e construída graças à caridade do Santo Padre.

Dom Dal Toso: Voltei essa semana de Burundi, um país com um passado doloroso, que quer virar a página. Quis-se dizer, com este bonito gesto do Santo Padre, o quão importante é educar o homem e o quanto a Igreja deseja contribuir para esta obra, para construir assim uma sociedade nova. Por isso, a escola Bento XVI foi muito apreciada. Em sua inauguração estava presente quase toda Conferência episcopal e uma qualificada representação do governo.

ZENIT: O mundo das ajudas católicas é muito variado. Que pensa desta presença, deste testemunho da Igreja?

Dom Dal Toso: Efetivamente, o mundo dos fiéis que se dedicam em nome da Igreja a ajudar o próximo é muito variado e sumamente eficiente. Nesta variedade não devemos ver um fator negativo, mas o contrário. Trata-se de uma riqueza. Na recente viagem ao Haiti, por ocasião do primeiro aniversário do terremoto de janeiro passado, nosso presidente pôde constatar pessoalmente que o grande, imenso trabalho realizado no território pelas diferentes organizações católicas e pela Cáritas Haiti é realmente para a população deste atormentado país um farol, um ponto de referência, quase a única fonte de esperança concreta de sair de uma situação aparentemente sem solução.

É muito importante que, junto com nossa caridade material, possa-se manifestar o amor que Deus tem por essas pessoas. Nessa semana foram divulgados os “Lineamenta” do próximo Sínodo sobre a Nova Evangelização. A verdadeira caridade é fazer chegar ao coração de cada homem o amor de Deus. Nossa presença não se pode limitar a dar uma ajuda material, mas deve ter esse “algo mais” de que fala o Papa em sua encíclica. O homem também é constituído de uma alma, que quer conhecer Cristo!

ZENIT: Qual é o parecer do Conselho Pontifício sobre a proposta dos candidatos a secretário geral da Cáritas Internationalis que se apresentaram recentemente à secretaria de Estado?

Dom Dal Toso: Não há nada de novo a acrescentar ao que já foi dito. O cardeal Sarah, durante a conferência de imprensa de 22 de fevereiro, com ocasião da apresentação da Mensagem de Quaresma do Santo Padre, recordou que se voltou a propor a reeleição do atual secretário geral da Cáritas Internationalis, cujo mandato está a ponto de terminar.

Os Estatutos vigentes da Cáritas Internationalis – que a própria Confederação quis – prevêem que a Santa Sé, com um “nulla osta”, confirme ou não confirme as candidaturas apresentadas. Depois de profundas reflexões com a secretaria de Estado, considerou-se oportuno buscar outro perfil para os próximos quatro anos.

Com isso não se quer tirar nenhum mérito ao trabalho da senhora Knight. Em mais de uma ocasião se reconheceu e apreciou publicamente o trabalho que ela realizou. A prática do “nulla osta” é um instrumento necessário, a fim de que os responsáveis últimos por um organismo possam guiá-lo do modo mais conveniente, pelo bem do próprio organismo. Durante os próximos quatro anos, a Cáritas estará comprometida em temáticas substanciais para sua missão, como a reforma dos Estatutos e do regulamento interno.

ZENIT: Em uma entrevista recente, a senhora Knight criticou o trabalho da Santa Sé e reconheceu diferenças entre sua agenda pessoal, seus tempos de ação, e o modo de ver as coisas no Vaticano. Que o senhor pensa disso?

Dom Dal Toso: É compreensível que depois de quatro anos de dedicação e trabalho profissional sério, a senhora Knight levado no coração a instituição e a sinta como própria, mas olhar para o futuro implica não ter medo da renovação dos cargos e da aprovação dos novos Estatutos com um consenso ampliado, que implica um verdadeiro diálogo com as instâncias apropriadas. Por outro lado, suas declarações sobre a falta de sintonia com a Santa Sé poderiam causar um grave dano no prestígio da Cáritas Internationalis, especialmente entre os fiéis.

Quanto ao método, quero dizer que não creio que usar os meios de comunicação para discutir questões de governo da Cáritas Internationalis seja o melhor modo de enfrentar os diferentes pontos de vista. Isso é comunicação unidirecional e não diálogo. Seria mais fácil utilizar os canais previstos para escutar e expor as próprias opiniões: a Cáritas Internationalis tem sua sede em Roma, a dez minutos de carro do Vaticano, tem um representante de “Cor Unum” na junta diretiva, como se afirma na própria entrevista, e o presidente de “Cor Unum” é um cardeal em estreito contato com o cardeal secretário de Estado. Parece-me que não faltam interlocutores, nem a vontade de diálogo da nossa parte, como na Cáritas Internationalis se sabe muito bem.

ZENIT: Em maio se celebrará a beatificação de João Paulo II. Poderia dizer algo a respeito?

Dom Dal Toso: João Paulo II pode ser considerado, com toda razão, um “Papa da caridade”. Seu pontificado se caracterizou por dois aspectos: o testemunho concreto da caridade e o anúncio explícito da mensagem evangélica. Ao coração do homem chega-se só através de Cristo!

Ele tinha muito claro este sinal dos tempos, esta urgência de voltar a levar Deus ao homem moderno, secularizado, distante, para que realmente possa ser feliz, completo e realizado. Graças a sua vontade, confiaram-se ao Conselho Pontifício “Cor Unum” duas fundações que sustentam há mais de 20 anos o desenvolvimento integral das populações desfavorecidas, exploradas e marginalizadas, uma na América Latina (a Fundação “Populorum Progressio”) e uma para os países do Sahel, na África (a Fundação João Paulo II para o Sahel).

No dicastério ainda está viva a memória do encontro do Papa com os operadores da caridade de todo o mundo, em 1999. Naquela ocasião, “Cor Unum” reuniu em Roma os representantes de diferentes realidades eclesiais, que deram seus testemunhos na praça de São Pedro sobre a experiência da caridade de Deus em suas vidas: como tinha sido possível perdoar, amar, reconstruir, atuar pelo bem do outro. Volta-se sempre ao conceito evangélico da necessidade de construir nossa casa, que representa em menor escala a sociedade, sobre o cimento sólido do amor verdadeiro, que é o amor de Deus. Do contrário, as estruturas – diz o próprio Senhor – não se mantêm em pé

Liturgia da Palavra: Nos tornarmos o mistério que celebramos.

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração.


Apresentamos o comentário à liturgia do próximo domingo – I de Quaresma Gn 2,7-9; 3,1-7; Rm 12-19; Mt 4, 1-11 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo).


Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.


I DOMINGO DE QUARESMA


Leituras: Gn 2,7-9; 3,1-7; Rm 12-19; Mt 4, 1-11.


Os primeiros nove domingos do Tempo Comum – caracterizados pelo início da missão de Jesus e a meditação do seu Sermão da montanha – acabaram de deixar-nos um recado de excepcional profundidade e dinamismo humano e espiritual, bem interpretado por Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em ti” (Confissões,Livr.1,1; LH do 9º Domingo do Tempo Comum).


A Quaresma nos abre o caminho para que possamos descer até o abismo desta inquietação, onde o coração humano se encontra com a inquietação do próprio Deus para com o homem: “Deus tanto amou o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).


“Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).


Na parábola do “filho pródigo”, ou do “Pai amoroso e misericordioso”, o próprio Jesus nos revela o misterioso dinamismo atuando nos corações do filho e do pai, e que consegue atrair de volta o filho para casa. Para o filho se reinicia uma nova história, quase um novo nascimento (Lc 15, 11-24).


Esta fascinante perspectiva nos joga no abismo da páscoa, lugar onde convergem e se encontram, no amor sacrificado do Ressuscitado, vencedor da morte, o amor gratuito e sofrido de Deus pelo homem e a inquieta busca do homem pela vida plena e a felicidade. A Quaresma marca o nosso retorno, ou o nosso êxodo, da terra da nossa dispersão para a nascente inesgotável e compassiva da vida que é a páscoa de Jesus. Ali se aprende a respirar e viver com o ritmo do coração de Deus. Os Padres da Igreja chamam este misterioso movimento, ativado pela páscoa de Jesus, de procura recíproca entre Deus e o homem, de “sacramento da quaresma”, ou mesmo, de “sacramento pascal”.


Por termos a imagem de Deus gravada na carne viva do nosso ser, e por termos sido mergulhados nas águas vivas da morte e Ressurreição de Jesus com o batismo na fé da Igreja, nós continuamos vivendo nas entranhas maternas de Deus a misteriosa gestação da nova criatura, juntamente com a criação inteira. Esta, a criação, anseia a ser desenvolvida até sua plenitude e a viver a liberdade própria dos filhos e das filhas de Deus (Rm 8, 18-25). Como atesta João, “desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou” (1 Jo 3, 2). Esta tensão entre o “já” e o “ainda não” nos atravessa internamente.


Deus fica cuidando de nós, de cada um de nós, como seu filho, ou filha, único e continua chamando-nos pelo nome para uma nova existência e missão, com a voz do amor que nos molda sempre mais à sua imagem (cf. Jr 1, 5; Sl 138, 13-16) até que, conformados plenamente a ele em Cristo, seu próprio nome esteja impresso na nossa fronte, em sinal de total pertença a ele na fidelidade e na reciprocidade do amor (cf. Ap 22, 4).


Tal é o dinamismo da páscoa que atravessa e anima tudo o que se deixa abraçar pela energia do Espírito, que ressuscitou Jesus da morte e deu início à nova criação (cf. Rm 1, 4).


No Brasil, a “Campanha da Fraternidade” de 2011 destaca a exigência da formação de uma nova consciência ecológica. O tema da Campanha poderia nos ajudar a nos conectarmos com a relação profunda existente entre si de todos os elementos da criação e a relação da pessoa humana com esses elementos no mesmo dinamismo da páscoa, e sublinhar a responsabilidade que o homem tem em relação à salvaguarda e ao desenvolvimento ordenado e sustentável do planeta Terra e das relações humanas. Esta atenção ajudaria a evitar contrapor, ou simplesmente de justapor, o assunto da Campanha da Fraternidade ao eixo central da quaresma e da páscoa.

Será que no processo global de transformação contínua, que abrange o universo e a existência humana, não está emergindo para o olho contemplativo da fé, o criador e multiforme rosto de Deus, fonte amante da vida, e o dinamismo da páscoa de Jesus, que gera nova vida através da radical transformação da própria morte e do pecado, pela força vital do amor?


Podemos contemplar com estupor e alegria, até onde pode chegar o “admirável intercâmbio” realizado na Encarnação do Verbo de Deus, que acabamos de celebrar nas festas do Natal e da Epifania, e que na Páscoa vai encontrar seu cume.


O convite de Jesus, repetido pela Igreja, ao acompanhar o gesto da imposição das cinzas no primeiro dia da quaresma, “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15), é o insistente convite a tomar consciência que nossa identidade de discípulos é um incessante processo de conversão ao Senhor. Pois não sabemos o que somos de verdade, enquanto o que seremos não foi ainda revelado em plenitude, como acabamos de ouvir do apóstolo João (cf. 1 Jo 3, 2).


Somos a admirável obra ainda inacabada do Espírito, a casa e o santuário de Deus em construção, fundamentado sobre a pedra angular que é o próprio Cristo Jesus (Ef 2, 20-22). Somos as crianças, que precisam ainda ser alimentadas com o leite da palavra até que nos tornemos adultos (1 Pd 2, 2-3). Ainda percebemos a realidade profunda de Deus e de nós mesmos, em maneira confusa e às vezes até mesmo distorcida, apenas vislumbrada no espelho da fé, enquanto esperamos conhecer e ser conhecidos em plenitude pelo coração amante de Deus (cf. 1 Cor 13, 12).


A Quaresma exprime e alimenta, ao mesmo tempo, a consciência de pertencer já ao mundo novo nascido na morte e ressurreição de Jesus, e a necessidade de acompanhar com perseverança e humildade o processo incompleto da nossa conformação a Cristo, o homem novo.


Por isso, o sentido profundo da Quaresma, está totalmente na sua orientação para a páscoa, sua origem e sua meta. Contrariamente ao sentido erroneamente difundido entre o povo, a alma profunda da Quaresma é a “sóbria alegria”, irradiada pela luz do ressuscitado que brilha na fé, e que a perspectiva da grande Vigília Pascal tem viva, alimentando a esperança de progredir no caminho com Cristo. “Vós concedeis, Senhor, aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa”(Prefácio da quaresma, n. 1).


Cada ano é uma nova espera e esperança de crescimento no Senhor, e por isso cada quaresma - páscoa é uma nova alegria. Uma espiral que nos acompanha, até celebrar na páscoa eterna a nova criação alcançando sua plenitude definitiva (Prefácio da Páscoa, n. 4).


Enfim, a perspectiva da Igreja, através do caminho da Quaresma, é a de nos ajudar a tornarmos em plenitude, o que já somos em raiz, e a nos tornarmos em nossa existência o mistério pascal que celebramos. A Quaresma sem a páscoa fica incompreensível. Mas também a páscoa, sem ter percorrido com seriedade o “itinerário quaresmal”, não poderia ser celebrada e vivenciada como “vida nova” que brota no coração convertido.

A Igreja, guiada pela sabedoria do Espírito, conhece as fraquezas da pessoa humana mesmo mergulhada na páscoa renovadora de Cristo, e por isso nos proporciona, com sábia pedagogia, o caminho da redescoberta da nossa iniciação ao Mistério Pascal de Cristo e da conversão renovada ao Senhor, através do arrependimento e da entrega confiante à sua misericórdia.


Com fina intuição pedagógica, a liturgia faz ressoar na celebração da quarta-feira das Cinzas a palavra do apóstolo na sua perene atualidade: “Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receber em vão a graça de Deus, pois ele diz: ‘No momento favorável eu te ouvi, e no dia da salvação eu te socorri’. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2).


A estrutura do ciclo pascal sustenta este dinamismo interior. A quaresma constitui a primeira parte do ciclo que, no seu conjunto, compreende: Tempo da quaresma – Tríduo Sagrado – Tempo de Páscoa/Pentecostes. O concílio Vaticano II, e a reforma por ele promovida, colocaram novamente em luz os dois elementos que desde sempre caracterizavam a Quaresma, mas que com o decorrer do tempo tinham sido escurecidos: a iniciação cristã, entrada no mistério pascal de Cristo, e apenitência, caminho de retorno às raízes da vida cristã no batismo (Sacrosanctum Concilium 109).


O descuido deste centro da fé e da formação cristã tinha contribuído, infelizmente, a focalizar a atenção da pregação e da prática religiosa do povo de Deus em aspectos significativos em si, mas colaterais à centralidade do mistério de Cristo e do caminho espiritual. A Quaresma se tornou o tempo marcado sobretudo por sinceras devoções populares, centradas nos sofrimentos e na morte de Jesus. A pregação se tornou prevalentemente moralística, centrada sobre o pecado, porém, com pouca conexão com a experiência da páscoa e do batismo, que constituem a nascente viva da moral cristã. Até hoje em dia se pode experimentar facilmente como é difícil contemplar a paixão e morte de Jesus em conexão com a sua ressurreição, e colocar os sofrimentos que cada um enfrenta na luz da paixão e da ressurreição do Senhor.


Os textos litúrgicos destacam com freqüência as dimensões batismal e penitencial do caminho cristão: basta ver o precioso tesouro das leituras bíblicas, assim como dos salmos responsoriais, das antífonas de entrada e de comunhão, das orações, dos prefácios, etc. Aos textos das celebrações da eucaristia, acrescenta-se a grande riqueza da Liturgia das Horas, que propõe uma abundante mesa da palavra bíblica e das reflexões espirituais de numerosos homens e mulheres de Deus, iluminados pela sabedoria do Espírito.


As leituras dos domingos do ano A destacam o itinerário batismal, seja em função dos catecúmenos que se preparam para receber o batismo, seja para orientar os fieis a renovar a graça da própria iniciação cristã.

A sucessão dos Evangelhos, aos quais estão claramente conexas a primeira e a segunda leitura, é muito eloqüente:


No 1º Domingo temos o combate vitorioso de Jesus com o diabo no deserto; esse episódio evidencia nossa condição de pessoas expostas em maneira permanente ao risco e ao combate espiritual (Mt 4,1-11).


No 2º Domingo, Jesus transfigurado em cima da montanha, é revelado aos discípulos como o Filho a quem escutar e seguir, e como a meta da nossa peregrinação (Mt 17, 1-9).


No 3º Domingo Jesus encontra a mulher samaritana junto do poço. Ele é a água viva que satisfaz nossa sede profunda de vida (Jo 4, 5 - 42).


O 4º Domingo apresenta Jesus curando o cego de nascença. Ele é a luz que ilumina nossas trevas e abre o caminho para o Pai (Jo 9, 1-41).


No 5º Domingo Jesus ressuscita o amigo Lázaro: ele é nossa vida e ressurreição (Jo 11, 1- 45).


No Domingo dos ramos as leituras nos colocam ao seguimento de Jesus. Ele exercida sua realeza da cruz e se põe como caminho de vida (Mt 21, 1-11= a entrada de Jesus em Jerusalém; Mt 26, 14 -27, 66: paixão e morte de Jesus). A grande Vigília Pascal com o anúncio da Ressurreição de Jesus e com suas etapas - liturgia da luz, liturgia da palavra, liturgia batismal, liturgia eucarística - constitui o oceano divino no qual deságua o caminho do povo de Deus, para uma nova experiência de liberdade filial.


Tudo isso constitui um patrimônio antigo e novo de fé e de oração, que a Igreja, com a reforma litúrgica, está pondo nas mãos do povo de Deus inteiro, e não somente do clero como acontecia antes. Uma mesa abundante, capaz de alimentar a Lectio Divina pessoal, a participação ativa à celebração, a pregação, centrada no Mistério Pascal de Cristo. É preciso não ter pressa, nem pretensão de “comer” tudo duma vez. A celebração da Quaresma não é um curso de palestras teológicas e espirituais. É um caminho silencioso de amor junto com o próprio Jesus, é uma refeição da alma junto com ele. Precisa de seu tempo e de sua quietude para “ruminar” e saborear a palavra do Senhor, como diziam os Padres da Igreja, para assimilá-la e deixar ao Espírito a liberdade de atuar em nós.


As leituras e as orações do primeiro Domingo oferecem uma síntese do percurso sofrido do caminho quaresmal, rumo à liberdade pascal, que se deixa vislumbrar ao final para quem perseverar no seguimento de Cristo.


O combate vitorioso de Jesus com o diabo no deserto (evangelho) indica como está profundamente enraizada no coração do homem e da mulher de todos os tempos a tentação de pôr-se diante de Deus, não no diálogo amante que Deus tinha imaginado com eles ao colocá-los como seus parceiros no jardim da vida (primeira leitura), mas em concorrência com ele, à procura de uma autonomia absoluta.


Jesus, ao invés, procura seu sustento não no pão produzido pelas próprias mãos, herdeiro do fruto proibido da arvore do paraíso, mas na confirmada relação filial com o Pai. Ele abre e indica o caminho certo para voltar às potencialidades originais que guardamos dentro de nós, e para construir um futuro de liberdade filial (segunda leitura).

Ratzinger-Bento XVI: A data da Última Ceia.

Passagem do livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição”
O livro do Papa “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” foi lançado nessa quinta-feira. Apresentamos a passagem “A data da Última Ceia”, do quarto capítulo do volume, divulgada por Agência Ecclesia e a Principia Editora (Portugal).

* * *

1. A data da Última Ceia

O problema da datação da Última Ceia de Jesus assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc 14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos trata-se de uma quinta-feira.


Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo a cronologia sinóptica –, Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de sexta-feira foi condenado à morte por Pila- tos e sucessivamente, «pela hora tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado. O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na ma- nhã do «primeiro dia da semana», no domingo.


Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf. v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá de facto tido lugar precisamente no dia da festa.


Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.


Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.


Esta coincidência, teologicamente importante, de Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica. João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu carácter pascal redunda problemática.


Por isso desde há muito que se fazem tentativas para conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.


A senhora Jaubert baseia-se principalmente em dois textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus, que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente 13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.


Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra, simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.


Observa a estudiosa francesa que as cronologias referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece – segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à manhã de sexta-feira.


Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos, nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di- rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida, ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria depois adiado a crucifixão até sexta-feira.

No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados também noutros textos.


A isto, porém, é preciso responder que os vestígios da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus, de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades, como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.


Ilustrei esta tese de maneira particularmente detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade, mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e simplesmente possível acolhê-la.


Que dizer então? A avaliação mais cuidada de todas as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P. Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das fontes, que a decisão deve ser favorável a João.


João tem razão quando afirma que, no momento do processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi- do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto significa que Jesus morreu na altura em que se imola- vam no templo os cordeiros pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso, que tivessem reconhecido Je- sus como o autêntico Cordeiro, que precisamente assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro significado – tudo isso é simplesmente normal.


Resta a pergunta: mas, então, porque é que os sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição? Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar. Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14, 12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não seria mencionada a Páscoa.


Esta operação, apesar dos numerosos nomes importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da Ceia como não pertencente à Páscoa» (A Marginal Jew, I, p. 398).

Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa.


Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.


Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu sentido pleno.


O primeiro testemunho desta visão unificadora do novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1, também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial. Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.


Com base nisto, pode-se compreender como a Última Ceia de Je- sus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.

Como ir à Missa e não perder a fé.

Bux: “No campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação insuportável”
Por Mariaelena Finessi

Um enfraquecimento da fé e a diminuição do número de fiéis poderiam ser atribuídos aos abusos litúrgicos e às Missas ruins, quer dizer, às que traem seu sentido original e onde, no centro, já não está Deus, mas o homem, com a bagagem de suas perguntas existenciais.

Essa é uma ideia sustentada por Nicola Bux, teólogo e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Apresentado em Roma no dia 2 de março, em seu livro "Come andare a Messa e non perdere la fede" [Como ir à Missa e não perder a fé, N. do T.], Bux lança-se contra a virada antropológica da liturgia.

Bux replica a quantos criticaram Bento XVI, acusando-o de ter traído o espírito conciliar. Ao contrário – argumenta o teólogo – os documentos oficiais do Concílio Vaticano II foram traídos precisamente por essas pessoas, bispos e sacerdotes à frente, que alteraram a liturgia com “deformações ao limite do suportável”.

Participar de uma celebração eucarística pode significar, de fato, também se encontrar perante as formas litúrgicas mais estranhas, com sacerdotes que discutem economia, política e sociologia, tecendo homilias em que Deus desaparece. Proliferam os ensaios de antropologia litúrgica até reduzir a esta dimensão os próprios sinais sacramentais, “agora chamados – denuncia Bux – preferivelmente de símbolos”. A questão não é pequena: enfrentá-la implica ser tachado de anticonciliar.

Todos se sentem com o direito de ensinar e praticar uma liturgia “ao seu modo”, tanto que hoje é possível assistir, por exemplo, “à afirmação de políticos católicos que, considerando-se ‘adultos’, propõem ideias de Igreja e de moral em contraste com a doutrina”.

Entre aqueles que iniciaram esta mudança, Bux recorda Karl Rahner, quem, à raiz do Concílio, denunciava a reflexão teológica então imperante que, em sua opinião, mostrava-se pouco atenta ou esquecida da realidade do homem.

O jesuíta alemão sustentava em contrapartida que todo discurso sobre Deus brotaria da pergunta que o homem lança sobre si mesmo. Em consequência – esta é a síntese – a tarefa da teologia deveria ser falar do homem e de sua salvação, lançando as perguntas sobre si e sobre o mundo. Um pensamento teológico que, com triste evidência, foi capaz de gerar erros, o mais clamoroso dos quais é o modo de entender o sacramento, hoje já não sentido como procedente do Alto, de Deus, mas como participação em algo que o cristão já possui.

“A conclusão que Häuβling tira disso – recuerda Bux – é que o homem, nos sacramentos, acabaria por participar de uma ação que não corresponde realmente a sua exigência de ser salvo”, já que abre mão da intervenção divina. A semelhante tese “sacramental” e à derivação anexa da liturgia, responde Joseph Ratzinger, que já no dorso do volume XI, “Teologia da Liturgia”, de sua Opera omnia, escreve: “Na relação com a liturgia se decide o destino da fé e da Igreja”.

A liturgia é sagrada, de fato, se tiver suas regras. Apesar disso, se por um lado o ethos, ou seja, a vida moral, é um elemento claro para todos, por outro lado, ignora-se quase totalmente que existe também um “jus divinum”, um direito de Deus a ser adorado. “O Senhor é zeloso de suas competências – sustenta Bux –, e o culto é o que lhe é mais próprio. Em contrapartida, precisamente no campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação”.

Sublinhando, em contrapartida, que sem “jus” o culto torna-se necessariamente idolátrico, em seu livro o teólogo cita uma passagem da “Introdução ao espírito da liturgia”, de Ratzinger, que escreve: “Na aparência, tudo está em ordem e presumivelmente também o ritual procede segundo as prescrições. E no entanto é uma queda na idolatria (...), faz-se Deus descer ao nível próprio, reduzindo-o a categorias de visibilidade e compreensibilidade”.

E acrescenta: “trata-se de um culto feito à própria medida (...), converte-se em uma festa que a comunidade faz para si mesma; celebrando-a, a comunidade não faz mais que confirmar a si mesma”. O resultado é irremediável: “Da adoração a Deus se passa a um círculo que gira em torno de si mesmo: comer, beber, divertir-se”. Em sua autobiografia (Mi vida), Ratzinger declara: “Estou convencido de que a crise eclesial em que hoje nos encontramos depende em grande parte do colapso da liturgia”.

Para encerrar, uma sugestão e uma advertência. A primeira é relançar a liturgia romana “olhando para o futuro da Igreja – escreve Bux –, em cujo centro está a cruz de Cristo, como está no centro do altar: Ele, Sumo Sacerdote a quem a Igreja dirige seu olhar hoje, como ontem e sempre”. A segunda é inequívoca: “se acreditamos que o Papa herdou as chaves de Pedro – conclui –, quem não o obedece, antes de tudo em matéria litúrgica e sacramental, não entra no Paraíso”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

“Eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém” - Myrian Rios em entrevista ao Jornal O Dia.

‘O melhor vai ser dado para Deus’, deputada estadual Myrian Rios.

A atriz Myrian Rios, que foi eleita deputada estadual pelo PDT em 2010, está hoje com 52 anos. Tem dois filhos: Edmar, de 14, e Pedro Arthur, de 9. O tempo está do seu lado. Com 35 anos de carreira, Myrian é uma mulher bonita, bem articulada, simpática e tem no passado lembrança que mata muita brasileira de inveja: já foi casada com o Rei Roberto Carlos. Hoje, está solteira, concentradíssima em seu mandato. Se pensa em casar de novo? “Eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém”. Sim, Myrian Rios hoje é missionária católica e, às vésperas do Dia Internacional da Mulher (8 de março), afirma, convicta, que ser uma mulher livre é ter o direito de decidir que só terá relações sexuais com o homem com quem se casar, uma decisão que tomou há mais de oito anos: “Se for namorar, agora, o namorado vai ter que se contentar em viver um namoro santo”.

ODIA: A senhora acaba de ser eleita deputada estadual e é referência de mulher independente e bem sucedida. Como a senhora se tornou missionária da comunidade católica Canção Nova?
MYRIAN: Eu busquei, em 2003, uma comunidade espiritual religiosa na Canção Nova para poder ter a direção espiritual que eu estava precisando. Durante um ano, um ano e meio, eu participava como amiga da comunidade — participava de palestras e das missas, comprava rifa... Até que veio o convite do fundador da comunidade, o monsenhor Jonas Abib, para eu fazer o caminho vocacional.

O que é esse caminho?
É como o padre faz o caminho vocacional para ver se tem vocação sacerdotal. Ao ser missionário, você tem que ter um comportamento diferenciado das outras pessoas. Comecei, então, a fazer o caminho vocacional, fui entendendo o que era e vi que ali era o meu lugar. Estou há mais de oito anos na comunidade e cinco como missionária consagrada.

Esse trabalho a ajudou a ser eleita?
É claro que, durante a minha campanha a deputada estadual, tive um apoio muito forte dos grupos de oração. Mas eu não busquei só o segmento católico. Eu tinha o segmento “atriz”, “mulher”, “mãe”... O que me chamou muito a atenção foi a afirmação das pessoas: “Eu já não votaria em mais ninguém. Mas porque você é candidata, eu vou votar em você”.

O que a senhora diria que é ser uma mulher livre?
A liberdade verdadeira é você poder escolher o tipo de vida que quer levar. Eu me sinto uma mulher livre para ser uma missionária consagrada. Na minha liberdade, eu vou à missa todos os dias. Isso é liberdade porque eu escolhi viver assim.

Tem sido noticiado que a senhora afirma ter decidido ter “namoros santos” desde que entrou para a Canção Nova. O que isso quer dizer?
Isso tudo é uma grande bobagem de quem não sabe o que é você se preservar, se respeitar e tomar uma decisão de que o meu melhor vai ser dado para Deus. Então, eu tomei uma decisão de não me relacionar sexualmente em namoros passageiros que muitas vezes não me levam a casamento. É uma liberdade que eu tenho de ser assim: de viver a castidade. Estou com 52 anos. Já fui casada com Roberto Carlos e Edmar Fontoura. Tenho dois filhos. Não sou mais nenhuma menina. Se for namorar, agora, o namorado vai ter que se contentar em viver um namoro santo.

Que papel o sexo, então, tem em sua vida?
O relacionamento sexual é sagrado, foi constituído por Deus para perpetuar a espécie. Está na Bíblia. Não foi criado para ficar banalizando. O sexo não faz parte da minha vida como a higiene pessoal, como muitos fazem: escova o dente, toma banho, faz sexo. O sexo tem que ter um valor melhor.

A senhora pensa em casar de novo?
Às vezes, penso em casar de novo até para me ajudar a educar meus filhos: eu sou mulher, eles são dois meninos. Mas, às vezes, penso: “Será que vai dar certo?” Eu já estou tão independente. A minha vida já está tão estruturada, que eu não sei se vai dar muito certo namorar e casar. Mas eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém.