quinta-feira, 17 de março de 2011

Liturgia da Palavra: Nos tornarmos o mistério que celebramos.

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração.


Apresentamos o comentário à liturgia do próximo domingo – I de Quaresma Gn 2,7-9; 3,1-7; Rm 12-19; Mt 4, 1-11 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo).


Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.


I DOMINGO DE QUARESMA


Leituras: Gn 2,7-9; 3,1-7; Rm 12-19; Mt 4, 1-11.


Os primeiros nove domingos do Tempo Comum – caracterizados pelo início da missão de Jesus e a meditação do seu Sermão da montanha – acabaram de deixar-nos um recado de excepcional profundidade e dinamismo humano e espiritual, bem interpretado por Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em ti” (Confissões,Livr.1,1; LH do 9º Domingo do Tempo Comum).


A Quaresma nos abre o caminho para que possamos descer até o abismo desta inquietação, onde o coração humano se encontra com a inquietação do próprio Deus para com o homem: “Deus tanto amou o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).


“Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).


Na parábola do “filho pródigo”, ou do “Pai amoroso e misericordioso”, o próprio Jesus nos revela o misterioso dinamismo atuando nos corações do filho e do pai, e que consegue atrair de volta o filho para casa. Para o filho se reinicia uma nova história, quase um novo nascimento (Lc 15, 11-24).


Esta fascinante perspectiva nos joga no abismo da páscoa, lugar onde convergem e se encontram, no amor sacrificado do Ressuscitado, vencedor da morte, o amor gratuito e sofrido de Deus pelo homem e a inquieta busca do homem pela vida plena e a felicidade. A Quaresma marca o nosso retorno, ou o nosso êxodo, da terra da nossa dispersão para a nascente inesgotável e compassiva da vida que é a páscoa de Jesus. Ali se aprende a respirar e viver com o ritmo do coração de Deus. Os Padres da Igreja chamam este misterioso movimento, ativado pela páscoa de Jesus, de procura recíproca entre Deus e o homem, de “sacramento da quaresma”, ou mesmo, de “sacramento pascal”.


Por termos a imagem de Deus gravada na carne viva do nosso ser, e por termos sido mergulhados nas águas vivas da morte e Ressurreição de Jesus com o batismo na fé da Igreja, nós continuamos vivendo nas entranhas maternas de Deus a misteriosa gestação da nova criatura, juntamente com a criação inteira. Esta, a criação, anseia a ser desenvolvida até sua plenitude e a viver a liberdade própria dos filhos e das filhas de Deus (Rm 8, 18-25). Como atesta João, “desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou” (1 Jo 3, 2). Esta tensão entre o “já” e o “ainda não” nos atravessa internamente.


Deus fica cuidando de nós, de cada um de nós, como seu filho, ou filha, único e continua chamando-nos pelo nome para uma nova existência e missão, com a voz do amor que nos molda sempre mais à sua imagem (cf. Jr 1, 5; Sl 138, 13-16) até que, conformados plenamente a ele em Cristo, seu próprio nome esteja impresso na nossa fronte, em sinal de total pertença a ele na fidelidade e na reciprocidade do amor (cf. Ap 22, 4).


Tal é o dinamismo da páscoa que atravessa e anima tudo o que se deixa abraçar pela energia do Espírito, que ressuscitou Jesus da morte e deu início à nova criação (cf. Rm 1, 4).


No Brasil, a “Campanha da Fraternidade” de 2011 destaca a exigência da formação de uma nova consciência ecológica. O tema da Campanha poderia nos ajudar a nos conectarmos com a relação profunda existente entre si de todos os elementos da criação e a relação da pessoa humana com esses elementos no mesmo dinamismo da páscoa, e sublinhar a responsabilidade que o homem tem em relação à salvaguarda e ao desenvolvimento ordenado e sustentável do planeta Terra e das relações humanas. Esta atenção ajudaria a evitar contrapor, ou simplesmente de justapor, o assunto da Campanha da Fraternidade ao eixo central da quaresma e da páscoa.

Será que no processo global de transformação contínua, que abrange o universo e a existência humana, não está emergindo para o olho contemplativo da fé, o criador e multiforme rosto de Deus, fonte amante da vida, e o dinamismo da páscoa de Jesus, que gera nova vida através da radical transformação da própria morte e do pecado, pela força vital do amor?


Podemos contemplar com estupor e alegria, até onde pode chegar o “admirável intercâmbio” realizado na Encarnação do Verbo de Deus, que acabamos de celebrar nas festas do Natal e da Epifania, e que na Páscoa vai encontrar seu cume.


O convite de Jesus, repetido pela Igreja, ao acompanhar o gesto da imposição das cinzas no primeiro dia da quaresma, “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15), é o insistente convite a tomar consciência que nossa identidade de discípulos é um incessante processo de conversão ao Senhor. Pois não sabemos o que somos de verdade, enquanto o que seremos não foi ainda revelado em plenitude, como acabamos de ouvir do apóstolo João (cf. 1 Jo 3, 2).


Somos a admirável obra ainda inacabada do Espírito, a casa e o santuário de Deus em construção, fundamentado sobre a pedra angular que é o próprio Cristo Jesus (Ef 2, 20-22). Somos as crianças, que precisam ainda ser alimentadas com o leite da palavra até que nos tornemos adultos (1 Pd 2, 2-3). Ainda percebemos a realidade profunda de Deus e de nós mesmos, em maneira confusa e às vezes até mesmo distorcida, apenas vislumbrada no espelho da fé, enquanto esperamos conhecer e ser conhecidos em plenitude pelo coração amante de Deus (cf. 1 Cor 13, 12).


A Quaresma exprime e alimenta, ao mesmo tempo, a consciência de pertencer já ao mundo novo nascido na morte e ressurreição de Jesus, e a necessidade de acompanhar com perseverança e humildade o processo incompleto da nossa conformação a Cristo, o homem novo.


Por isso, o sentido profundo da Quaresma, está totalmente na sua orientação para a páscoa, sua origem e sua meta. Contrariamente ao sentido erroneamente difundido entre o povo, a alma profunda da Quaresma é a “sóbria alegria”, irradiada pela luz do ressuscitado que brilha na fé, e que a perspectiva da grande Vigília Pascal tem viva, alimentando a esperança de progredir no caminho com Cristo. “Vós concedeis, Senhor, aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa”(Prefácio da quaresma, n. 1).


Cada ano é uma nova espera e esperança de crescimento no Senhor, e por isso cada quaresma - páscoa é uma nova alegria. Uma espiral que nos acompanha, até celebrar na páscoa eterna a nova criação alcançando sua plenitude definitiva (Prefácio da Páscoa, n. 4).


Enfim, a perspectiva da Igreja, através do caminho da Quaresma, é a de nos ajudar a tornarmos em plenitude, o que já somos em raiz, e a nos tornarmos em nossa existência o mistério pascal que celebramos. A Quaresma sem a páscoa fica incompreensível. Mas também a páscoa, sem ter percorrido com seriedade o “itinerário quaresmal”, não poderia ser celebrada e vivenciada como “vida nova” que brota no coração convertido.

A Igreja, guiada pela sabedoria do Espírito, conhece as fraquezas da pessoa humana mesmo mergulhada na páscoa renovadora de Cristo, e por isso nos proporciona, com sábia pedagogia, o caminho da redescoberta da nossa iniciação ao Mistério Pascal de Cristo e da conversão renovada ao Senhor, através do arrependimento e da entrega confiante à sua misericórdia.


Com fina intuição pedagógica, a liturgia faz ressoar na celebração da quarta-feira das Cinzas a palavra do apóstolo na sua perene atualidade: “Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receber em vão a graça de Deus, pois ele diz: ‘No momento favorável eu te ouvi, e no dia da salvação eu te socorri’. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2).


A estrutura do ciclo pascal sustenta este dinamismo interior. A quaresma constitui a primeira parte do ciclo que, no seu conjunto, compreende: Tempo da quaresma – Tríduo Sagrado – Tempo de Páscoa/Pentecostes. O concílio Vaticano II, e a reforma por ele promovida, colocaram novamente em luz os dois elementos que desde sempre caracterizavam a Quaresma, mas que com o decorrer do tempo tinham sido escurecidos: a iniciação cristã, entrada no mistério pascal de Cristo, e apenitência, caminho de retorno às raízes da vida cristã no batismo (Sacrosanctum Concilium 109).


O descuido deste centro da fé e da formação cristã tinha contribuído, infelizmente, a focalizar a atenção da pregação e da prática religiosa do povo de Deus em aspectos significativos em si, mas colaterais à centralidade do mistério de Cristo e do caminho espiritual. A Quaresma se tornou o tempo marcado sobretudo por sinceras devoções populares, centradas nos sofrimentos e na morte de Jesus. A pregação se tornou prevalentemente moralística, centrada sobre o pecado, porém, com pouca conexão com a experiência da páscoa e do batismo, que constituem a nascente viva da moral cristã. Até hoje em dia se pode experimentar facilmente como é difícil contemplar a paixão e morte de Jesus em conexão com a sua ressurreição, e colocar os sofrimentos que cada um enfrenta na luz da paixão e da ressurreição do Senhor.


Os textos litúrgicos destacam com freqüência as dimensões batismal e penitencial do caminho cristão: basta ver o precioso tesouro das leituras bíblicas, assim como dos salmos responsoriais, das antífonas de entrada e de comunhão, das orações, dos prefácios, etc. Aos textos das celebrações da eucaristia, acrescenta-se a grande riqueza da Liturgia das Horas, que propõe uma abundante mesa da palavra bíblica e das reflexões espirituais de numerosos homens e mulheres de Deus, iluminados pela sabedoria do Espírito.


As leituras dos domingos do ano A destacam o itinerário batismal, seja em função dos catecúmenos que se preparam para receber o batismo, seja para orientar os fieis a renovar a graça da própria iniciação cristã.

A sucessão dos Evangelhos, aos quais estão claramente conexas a primeira e a segunda leitura, é muito eloqüente:


No 1º Domingo temos o combate vitorioso de Jesus com o diabo no deserto; esse episódio evidencia nossa condição de pessoas expostas em maneira permanente ao risco e ao combate espiritual (Mt 4,1-11).


No 2º Domingo, Jesus transfigurado em cima da montanha, é revelado aos discípulos como o Filho a quem escutar e seguir, e como a meta da nossa peregrinação (Mt 17, 1-9).


No 3º Domingo Jesus encontra a mulher samaritana junto do poço. Ele é a água viva que satisfaz nossa sede profunda de vida (Jo 4, 5 - 42).


O 4º Domingo apresenta Jesus curando o cego de nascença. Ele é a luz que ilumina nossas trevas e abre o caminho para o Pai (Jo 9, 1-41).


No 5º Domingo Jesus ressuscita o amigo Lázaro: ele é nossa vida e ressurreição (Jo 11, 1- 45).


No Domingo dos ramos as leituras nos colocam ao seguimento de Jesus. Ele exercida sua realeza da cruz e se põe como caminho de vida (Mt 21, 1-11= a entrada de Jesus em Jerusalém; Mt 26, 14 -27, 66: paixão e morte de Jesus). A grande Vigília Pascal com o anúncio da Ressurreição de Jesus e com suas etapas - liturgia da luz, liturgia da palavra, liturgia batismal, liturgia eucarística - constitui o oceano divino no qual deságua o caminho do povo de Deus, para uma nova experiência de liberdade filial.


Tudo isso constitui um patrimônio antigo e novo de fé e de oração, que a Igreja, com a reforma litúrgica, está pondo nas mãos do povo de Deus inteiro, e não somente do clero como acontecia antes. Uma mesa abundante, capaz de alimentar a Lectio Divina pessoal, a participação ativa à celebração, a pregação, centrada no Mistério Pascal de Cristo. É preciso não ter pressa, nem pretensão de “comer” tudo duma vez. A celebração da Quaresma não é um curso de palestras teológicas e espirituais. É um caminho silencioso de amor junto com o próprio Jesus, é uma refeição da alma junto com ele. Precisa de seu tempo e de sua quietude para “ruminar” e saborear a palavra do Senhor, como diziam os Padres da Igreja, para assimilá-la e deixar ao Espírito a liberdade de atuar em nós.


As leituras e as orações do primeiro Domingo oferecem uma síntese do percurso sofrido do caminho quaresmal, rumo à liberdade pascal, que se deixa vislumbrar ao final para quem perseverar no seguimento de Cristo.


O combate vitorioso de Jesus com o diabo no deserto (evangelho) indica como está profundamente enraizada no coração do homem e da mulher de todos os tempos a tentação de pôr-se diante de Deus, não no diálogo amante que Deus tinha imaginado com eles ao colocá-los como seus parceiros no jardim da vida (primeira leitura), mas em concorrência com ele, à procura de uma autonomia absoluta.


Jesus, ao invés, procura seu sustento não no pão produzido pelas próprias mãos, herdeiro do fruto proibido da arvore do paraíso, mas na confirmada relação filial com o Pai. Ele abre e indica o caminho certo para voltar às potencialidades originais que guardamos dentro de nós, e para construir um futuro de liberdade filial (segunda leitura).

Ratzinger-Bento XVI: A data da Última Ceia.

Passagem do livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição”
O livro do Papa “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” foi lançado nessa quinta-feira. Apresentamos a passagem “A data da Última Ceia”, do quarto capítulo do volume, divulgada por Agência Ecclesia e a Principia Editora (Portugal).

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1. A data da Última Ceia

O problema da datação da Última Ceia de Jesus assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc 14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos trata-se de uma quinta-feira.


Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo a cronologia sinóptica –, Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de sexta-feira foi condenado à morte por Pila- tos e sucessivamente, «pela hora tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado. O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na ma- nhã do «primeiro dia da semana», no domingo.


Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf. v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá de facto tido lugar precisamente no dia da festa.


Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.


Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.


Esta coincidência, teologicamente importante, de Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica. João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu carácter pascal redunda problemática.


Por isso desde há muito que se fazem tentativas para conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.


A senhora Jaubert baseia-se principalmente em dois textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus, que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente 13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.


Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra, simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.


Observa a estudiosa francesa que as cronologias referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece – segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à manhã de sexta-feira.


Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos, nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di- rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida, ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria depois adiado a crucifixão até sexta-feira.

No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados também noutros textos.


A isto, porém, é preciso responder que os vestígios da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus, de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades, como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.


Ilustrei esta tese de maneira particularmente detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade, mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e simplesmente possível acolhê-la.


Que dizer então? A avaliação mais cuidada de todas as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P. Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das fontes, que a decisão deve ser favorável a João.


João tem razão quando afirma que, no momento do processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi- do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto significa que Jesus morreu na altura em que se imola- vam no templo os cordeiros pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso, que tivessem reconhecido Je- sus como o autêntico Cordeiro, que precisamente assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro significado – tudo isso é simplesmente normal.


Resta a pergunta: mas, então, porque é que os sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição? Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar. Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14, 12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não seria mencionada a Páscoa.


Esta operação, apesar dos numerosos nomes importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da Ceia como não pertencente à Páscoa» (A Marginal Jew, I, p. 398).

Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa.


Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.


Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu sentido pleno.


O primeiro testemunho desta visão unificadora do novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1, também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial. Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.


Com base nisto, pode-se compreender como a Última Ceia de Je- sus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.

Como ir à Missa e não perder a fé.

Bux: “No campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação insuportável”
Por Mariaelena Finessi

Um enfraquecimento da fé e a diminuição do número de fiéis poderiam ser atribuídos aos abusos litúrgicos e às Missas ruins, quer dizer, às que traem seu sentido original e onde, no centro, já não está Deus, mas o homem, com a bagagem de suas perguntas existenciais.

Essa é uma ideia sustentada por Nicola Bux, teólogo e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Apresentado em Roma no dia 2 de março, em seu livro "Come andare a Messa e non perdere la fede" [Como ir à Missa e não perder a fé, N. do T.], Bux lança-se contra a virada antropológica da liturgia.

Bux replica a quantos criticaram Bento XVI, acusando-o de ter traído o espírito conciliar. Ao contrário – argumenta o teólogo – os documentos oficiais do Concílio Vaticano II foram traídos precisamente por essas pessoas, bispos e sacerdotes à frente, que alteraram a liturgia com “deformações ao limite do suportável”.

Participar de uma celebração eucarística pode significar, de fato, também se encontrar perante as formas litúrgicas mais estranhas, com sacerdotes que discutem economia, política e sociologia, tecendo homilias em que Deus desaparece. Proliferam os ensaios de antropologia litúrgica até reduzir a esta dimensão os próprios sinais sacramentais, “agora chamados – denuncia Bux – preferivelmente de símbolos”. A questão não é pequena: enfrentá-la implica ser tachado de anticonciliar.

Todos se sentem com o direito de ensinar e praticar uma liturgia “ao seu modo”, tanto que hoje é possível assistir, por exemplo, “à afirmação de políticos católicos que, considerando-se ‘adultos’, propõem ideias de Igreja e de moral em contraste com a doutrina”.

Entre aqueles que iniciaram esta mudança, Bux recorda Karl Rahner, quem, à raiz do Concílio, denunciava a reflexão teológica então imperante que, em sua opinião, mostrava-se pouco atenta ou esquecida da realidade do homem.

O jesuíta alemão sustentava em contrapartida que todo discurso sobre Deus brotaria da pergunta que o homem lança sobre si mesmo. Em consequência – esta é a síntese – a tarefa da teologia deveria ser falar do homem e de sua salvação, lançando as perguntas sobre si e sobre o mundo. Um pensamento teológico que, com triste evidência, foi capaz de gerar erros, o mais clamoroso dos quais é o modo de entender o sacramento, hoje já não sentido como procedente do Alto, de Deus, mas como participação em algo que o cristão já possui.

“A conclusão que Häuβling tira disso – recuerda Bux – é que o homem, nos sacramentos, acabaria por participar de uma ação que não corresponde realmente a sua exigência de ser salvo”, já que abre mão da intervenção divina. A semelhante tese “sacramental” e à derivação anexa da liturgia, responde Joseph Ratzinger, que já no dorso do volume XI, “Teologia da Liturgia”, de sua Opera omnia, escreve: “Na relação com a liturgia se decide o destino da fé e da Igreja”.

A liturgia é sagrada, de fato, se tiver suas regras. Apesar disso, se por um lado o ethos, ou seja, a vida moral, é um elemento claro para todos, por outro lado, ignora-se quase totalmente que existe também um “jus divinum”, um direito de Deus a ser adorado. “O Senhor é zeloso de suas competências – sustenta Bux –, e o culto é o que lhe é mais próprio. Em contrapartida, precisamente no campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação”.

Sublinhando, em contrapartida, que sem “jus” o culto torna-se necessariamente idolátrico, em seu livro o teólogo cita uma passagem da “Introdução ao espírito da liturgia”, de Ratzinger, que escreve: “Na aparência, tudo está em ordem e presumivelmente também o ritual procede segundo as prescrições. E no entanto é uma queda na idolatria (...), faz-se Deus descer ao nível próprio, reduzindo-o a categorias de visibilidade e compreensibilidade”.

E acrescenta: “trata-se de um culto feito à própria medida (...), converte-se em uma festa que a comunidade faz para si mesma; celebrando-a, a comunidade não faz mais que confirmar a si mesma”. O resultado é irremediável: “Da adoração a Deus se passa a um círculo que gira em torno de si mesmo: comer, beber, divertir-se”. Em sua autobiografia (Mi vida), Ratzinger declara: “Estou convencido de que a crise eclesial em que hoje nos encontramos depende em grande parte do colapso da liturgia”.

Para encerrar, uma sugestão e uma advertência. A primeira é relançar a liturgia romana “olhando para o futuro da Igreja – escreve Bux –, em cujo centro está a cruz de Cristo, como está no centro do altar: Ele, Sumo Sacerdote a quem a Igreja dirige seu olhar hoje, como ontem e sempre”. A segunda é inequívoca: “se acreditamos que o Papa herdou as chaves de Pedro – conclui –, quem não o obedece, antes de tudo em matéria litúrgica e sacramental, não entra no Paraíso”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

“Eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém” - Myrian Rios em entrevista ao Jornal O Dia.

‘O melhor vai ser dado para Deus’, deputada estadual Myrian Rios.

A atriz Myrian Rios, que foi eleita deputada estadual pelo PDT em 2010, está hoje com 52 anos. Tem dois filhos: Edmar, de 14, e Pedro Arthur, de 9. O tempo está do seu lado. Com 35 anos de carreira, Myrian é uma mulher bonita, bem articulada, simpática e tem no passado lembrança que mata muita brasileira de inveja: já foi casada com o Rei Roberto Carlos. Hoje, está solteira, concentradíssima em seu mandato. Se pensa em casar de novo? “Eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém”. Sim, Myrian Rios hoje é missionária católica e, às vésperas do Dia Internacional da Mulher (8 de março), afirma, convicta, que ser uma mulher livre é ter o direito de decidir que só terá relações sexuais com o homem com quem se casar, uma decisão que tomou há mais de oito anos: “Se for namorar, agora, o namorado vai ter que se contentar em viver um namoro santo”.

ODIA: A senhora acaba de ser eleita deputada estadual e é referência de mulher independente e bem sucedida. Como a senhora se tornou missionária da comunidade católica Canção Nova?
MYRIAN: Eu busquei, em 2003, uma comunidade espiritual religiosa na Canção Nova para poder ter a direção espiritual que eu estava precisando. Durante um ano, um ano e meio, eu participava como amiga da comunidade — participava de palestras e das missas, comprava rifa... Até que veio o convite do fundador da comunidade, o monsenhor Jonas Abib, para eu fazer o caminho vocacional.

O que é esse caminho?
É como o padre faz o caminho vocacional para ver se tem vocação sacerdotal. Ao ser missionário, você tem que ter um comportamento diferenciado das outras pessoas. Comecei, então, a fazer o caminho vocacional, fui entendendo o que era e vi que ali era o meu lugar. Estou há mais de oito anos na comunidade e cinco como missionária consagrada.

Esse trabalho a ajudou a ser eleita?
É claro que, durante a minha campanha a deputada estadual, tive um apoio muito forte dos grupos de oração. Mas eu não busquei só o segmento católico. Eu tinha o segmento “atriz”, “mulher”, “mãe”... O que me chamou muito a atenção foi a afirmação das pessoas: “Eu já não votaria em mais ninguém. Mas porque você é candidata, eu vou votar em você”.

O que a senhora diria que é ser uma mulher livre?
A liberdade verdadeira é você poder escolher o tipo de vida que quer levar. Eu me sinto uma mulher livre para ser uma missionária consagrada. Na minha liberdade, eu vou à missa todos os dias. Isso é liberdade porque eu escolhi viver assim.

Tem sido noticiado que a senhora afirma ter decidido ter “namoros santos” desde que entrou para a Canção Nova. O que isso quer dizer?
Isso tudo é uma grande bobagem de quem não sabe o que é você se preservar, se respeitar e tomar uma decisão de que o meu melhor vai ser dado para Deus. Então, eu tomei uma decisão de não me relacionar sexualmente em namoros passageiros que muitas vezes não me levam a casamento. É uma liberdade que eu tenho de ser assim: de viver a castidade. Estou com 52 anos. Já fui casada com Roberto Carlos e Edmar Fontoura. Tenho dois filhos. Não sou mais nenhuma menina. Se for namorar, agora, o namorado vai ter que se contentar em viver um namoro santo.

Que papel o sexo, então, tem em sua vida?
O relacionamento sexual é sagrado, foi constituído por Deus para perpetuar a espécie. Está na Bíblia. Não foi criado para ficar banalizando. O sexo não faz parte da minha vida como a higiene pessoal, como muitos fazem: escova o dente, toma banho, faz sexo. O sexo tem que ter um valor melhor.

A senhora pensa em casar de novo?
Às vezes, penso em casar de novo até para me ajudar a educar meus filhos: eu sou mulher, eles são dois meninos. Mas, às vezes, penso: “Será que vai dar certo?” Eu já estou tão independente. A minha vida já está tão estruturada, que eu não sei se vai dar muito certo namorar e casar. Mas eu sou uma missionária obediente a Deus. Se for projeto de Deus, Amém.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O programa de Planned Parenthood: ganhar dinheiro incentivando as mulheres a abortar.

A compaixão de Abby Johnson pelas mulheres em crise, devido a uma gravidez não desejada, levou-a a trabalhar em Planned Parenthood, mas sua promoção do aborto e da contracepção logo a deixou em dúvida sobre as necessidades reais de tais mulheres. A ex-diretora da clínica de Planned Parenthood, que deixou o emprego depois de ter assistido a um aborto, falou com ZENIT sobre as necessidades reais das mulheres em situação de crise e sobre como ser pró-vida significa verdadeiramente educar as pessoas na liberdade que determinará suas vidas.


Johnson publicou o livro "Unplanned" no mês passado, no qual explica o programa de Planned Parenthood: ganhar dinheiro incentivando as mulheres a abortar. Ela está trabalhando atualmente com a organização pró-vida 40 Days For Life, que começará outra campanha de oração, em 9 de março, para chegar de forma pacífica às mulheres em necessidade.


Nesta entrevista com ZENIT, Johnson conta por que sua aproximação de 40 Days For Life foi um sucesso sem precedentes, tanto em sua própria conversão como na da vida de outros.


ZENIT: Em seu livro, uma constante é a sua compaixão e seu desejo sincero de ajudar as mulheres em crise, já que foi justamente isso que a motivou a trabalhar na clínica de Planned Parenthood. Você parece ter notado, entretanto, que sua atitude de caridade evangélica tem mais consonância com a verdade ao unir-se à causa pró-vida. Como aconteceu essa mudança na sua compreensão sobre o que as mulheres em crise realmente precisam?


Abby Johnson: As mulheres em crise não precisam de uma "solução rápida". Esta solução rápida normalmente vem acompanhada de uma dor emocional que dura a vida inteira; entrar em uma clínica sendo mãe e sair dela sem sê-lo mais causa nas mulheres e em suas famílias uma dor que nunca sequer imaginaram.

Eu não estava ciente desta realidade até que eu mesma fui testemunha de um aborto guiado por ecografia. Ver um corpo perfeitamente formado que foge dos instrumentos do aborto e ver como é cortado em pedacinhos me "despertou", em todos os sentidos. Percebi que eu não estava ajudando as mulheres com problemas: estava adicionando um novo problema a todos os que elas já enfrentavam!

Estas mulheres precisam ser respeitadas e ter tempo para ponderar todas as "escolhas" disponíveis, com seus prós e contras. Elas precisam de compaixão, de um ombro amigo para chorar, de uma pessoa que as escute e, sobretudo, de alguém que as anime, porque elas merecem algo melhor que o aborto.

As clínicas de aborto continuarão acumulando nelas crise atrás de crise; nós, como pró-vida, continuaremos oferecendo-lhes esperança e um futuro melhor, apesar de seus problemas.


ZENIT: Você já fez muita coisa para explicar como o objetivo de Planned Parenthood é incentivar a abortar por razões econômicas. O que você pensa sobre a difusão de métodos anticoncepcionais? Você mudou sua opinião sobre a eficácia desses meios para "evitar uma gravidez indesejada"?


Abby Johnson: Enquanto eu trabalhava na Planned Parenthood, descobriu que 60% das gravidezes não desejadas eram de mulheres que haviam usado algum método anticoncepcional; uma das razões é que a Planned Parenthood não deseja ter o trabalho e dedicar tempo a educar as mulheres em suas escolhas sobre o método anticoncepcional, mas, ao contrário, sai por aí distribuindo métodos contraceptivos como se fossem balas.

O fato de não dedicarem tempo para explicar os riscos, complicações e componentes necessários para o controle da natalidade faz com que muitas mulheres abusem do método que estão usando, o que as leva a uma gravidez não planejada. Planned Parenthood, então, usa o aborto como sistema de segurança no controle da natalidade.

Sempre defendi o controle da natalidade, porque, mesmo quando trabalhava na Planned Parenthood, meu objetivo era reduzir os abortos através de meios gratuitos ou a preços acessíveis de controle de natalidade para os casais sexualmente ativos que não estavam dispostos a formar uma família. Embora eu, pessoalmente, prefira não utilizar métodos contraceptivos hormonais, devido aos riscos médicos envolvidos e às minhas crenças espirituais, compreendo aqueles que o fazem, e nós sabemos que, como associação, precisamos informar as mulheres que há opções melhores do que os contraceptivos hormonais. Minha recomendação para aqueles que tentam usar um método contraceptivo é o planejamento familiar natural, que é um caminho natural para evitar uma gravidez indesejada ou inesperada, sem o uso de medicamentos ou procedimentos médicos. É também uma maneira de se conectar com o próprio parceiro em um nível muito pessoal, no qual ambos têm o mesmo grau de responsabilidade no processo de fertilidade.


ZENIT: De acordo com a sua história, foi o foco único da campanha 40 Days for Life que tocou seu coração e provocou sua conversão. Em que consiste esta campanha e por que é tão eficaz na promoção da causa pró-vida?


Abby Johnson: A 40 Days For Life é uma campanha que consiste em 40 dias de vigílias de oração pacíficas no exterior das clínicas de aborto. Sua finalidade é diferente dos "pelotões" que havia fora das clínicas de aborto há alguns anos. Seu objetivo não é condenar ou odiar, mas chegar a uma aproximação amorosa, de paz e de oração.

Os 40 dias de vigilância constante não são só pela dedicação, mas por uma causa que vai além dos esforços da indústria do aborto para ajudar essas mulheres. Não se preocupam somente com a saúde ou com o bem-estar físico das mulheres que podem ou não estar grávidas, mas também pelo seu bem-estar espiritual.


ZENIT: O que você gostaria que as pessoas pró-vida aprendessem com a sua história, sobre como falar com amigos, familiares ou colegas que são pró-aborto?


Abby Johnson: A única maneira de conversar com amigos, familiares ou colegas pró-aborto é a partir da serenidade, da oração e do amor. No meu livro, relato como as pessoas se reuniam na frente da Planned Parenthood para condenar; isso nos fazia - a mim e aos meus colegas de trabalho - querer "proteger" mais ainda essas mulheres.

Sempre foram a presença e as palavras de pessoas de paz, de oração e de amor que me fizeram pensar mais e até mesmo refletir realmente com elas.

Eu sabia que queriam o mesmo que eu; queriam desesperadamente ajudar essas mulheres (embora eu pensasse que queriam ajudar de forma errada). Apesar da minha mentalidade pró-aborto, essas pessoas me impressionaram, e acabei absorvendo suas palavras e ações, até o dia em que deixei Planned Parenthood.

Minhas palavras a todos os pró-vida são: "Não desistam! Mas vocês devem se apresentar de uma forma que os trabalhadores ou advogados da causa abortista se sintam atraídos por vocês e que não se esqueçam de vocês, porque isso é o que transforma os corações".

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PAPA EXORTA OS JOVENS A CONHECEREM A SUA FÉ.

Um subsídio para conhecer a fé cristã “com a mesma precisão com a qual um especialista em informática conhece o sistema operacional de um computador”. Com esta insólita imagem, Bento XVI se dirige aos jovens no prefácio de “Youcat”, um livro de 300 páginas que será em breve publicado, e no qual - com um sistema de perguntas e respostas e numa linguagem ágil – os jovens podem encontrar expostas as verdades de fé contidas no Catecismo da Igreja Católica. O texto será lançado em sete idiomas, e terá como primeiros destinatários os jovens que participarão em agosto, do Dia Mundial da Juventude, em Madri.

A inspiração inicial foi dos bispos austríacos, liderados pelo Cardeal Schönborn. Pensando na melhor forma de preparar os jovens que irão a Madri para o encontro com o Papa, surgiu a idéia de dar-lhes um livro para colocar na sua mochila, um livro que falasse de fé com o imediatismo e o frescor da sua linguagem. A equipe de teólogos, peritos na catequese e juventude, começou a trabalhar e deu vida à "Youcat”, um subsídio que em quatro capítulos, resume com ilustrações, perguntas e respostas, quatro temas principais: “Em que acreditamos”; “A celebração do mistério cristão”; A Vida de Cristo”; e “A Oração na vida cristã”.

O resultado foi muito apreciado por Bento XVI, como se pode ler no prefácio do livro, publicado com exclusividade, na edição de fevereiro, pela revista “Mensageiro de Santo Antônio”. Recordando a gênese difícil do “Catecismo da Igreja Católica” – uma obra complexa e “audaz”, pois condensa dois mil anos de experiência e diversidade eclesial em um único livro - Bento XVI lembra que, já na época, se perguntou se não fosse o caso de “traduzir”, por assim dizer, o texto do Catecismo aproximando-o a determinadas categorias de pessoas.

“Youcat” é essencialmente isso: uma espécie de “tradução” do Catecismo pensado para os jovens. “Espero que muitos jovens se deixem cativar por esse livro”, auspicia Bento XVI, que observa: “Algumas pessoas me dizem que o catecismo não interessa à juventude de hoje; mas eu não acredito nessa afirmação e tenho certeza de que estou certo. A juventude não é tão superficial como muitos dizem, os jovens querem saber o que é realmente a vida”.

E o Papa acrescenta: “Um romance policial é atraente, porque nos envolve no destino de outras pessoas, mas que poderia ser também o nosso; esse livro é interessante porque nos fala do nosso próprio destino e, portanto, está intimamente relacionado com cada um de nós”.

Não se trata, assegura, de um subsídio “que bajula o jovem, não oferece soluções fáceis”, mas “apresenta a mensagem do Evangelho como a pérola preciosa, pela qual devemos dar tudo”.

Por isso, exorta ainda o Papa, “estudem o catecismo com paixão e perseverança! Sacrifiquem o seu tempo para isso! Estudem-no no silêncio do seu quarto, leiam-no em dois, se vocês são amigos, formem grupos de estudo, troquem idéias através da Internet. Permaneçam sempre em diálogo sobre a fé de vocês! Vocês precisam conhecer o que vocês acreditam; precisam conhecer a sua fé – indica o Papa Bento XVI –com a mesma precisão com a qual um especialista em informática conhece o sistema operacional de um computador, como um músico conhece a sua música”.

E assim conclui o Papa: “Vocês sabem que a comunidade dos fiéis nos últimos tempos foi ferida pelos ataques do mal, pela penetração do pecado no seu interior, chegando ao coração da Igreja".

Pois bem, escreve: “Não tomem isso como uma desculpa para fugir dos olhos de Deus; vocês são o corpo de Cristo, a Igreja! Levem o fogo intacto do seu amor a esta igreja todas as vezes que os homens obscurecem o seu rosto”.