terça-feira, 13 de abril de 2010

VATICANO: DIRETRIZES SOBRE ABUSOS CONTRA MENORES.

A Congregação para a Doutrina da Fé publicou, nesta segunda-feira, uma nota onde são explicados os procedimentos canônicos que devem ser adotados nos casos de abusos sexuais contra menores.

A medida a ser aplicada é o Motu Proprio Sacramentorum Sanctitatis tutela de 30 de abril de 2001 junto com o Código de Direito Canônico de 1983.

Na fase preliminar, a diocese indaga sobre qualquer suspeita de abusos sexuais perpetrados por um religioso contra um menor. Se a suspeita for verossímil, o caso deve ser levado à Congregação para a Doutrina da Fé. O bispo local transmite todas as informações necessárias à Congregação para a Doutrina da Fé e expressa sua opinião sobre medidas e procedimentos que devem ser adotados. A lei civil referente à denúncia dos crimes às autoridades apropriadas deve ser sempre aplicada. Nesta fase, o bispo pode impor medidas de precaução para salvaguardar a comunidade e as vítimas. É conferido ao bispo local o poder de tutelar as crianças, limitando as atividades de qualquer sacerdote em sua diocese. A Congregação para a Doutrina da Fé estuda o caso apresentado pelo bispo local e, se for necessário, solicita informações suplementares. O sacerdote acusado é chamado a responder às acusações e tem o direito de apresentar recurso ao referido organismo vaticano contra um decreto que o condene a uma pena canônica.

A decisão dos cardeais membros da Congregação para a Doutrina Fé é definitiva. Se o sacerdote for condenado, os processos judiciário e penal podem condená-lo a um certo número de penas canônicas, até a destituição do estado clerical.

Nos casos particularmente graves, em que um religioso durante um processo é declarado culpado de abusos sexuais contra menores ou que as provas sejam evidentes, a Congregação para a Doutrina da Fé pode decidir levar tal caso diretamente ao Santo Padre a fim de que o Papa emita um decreto de demissão do estado clerical "ex officio". Não existe recurso canônico contra o decreto papal.

O organismo vaticano leva também ao Santo Padre os pedidos dos sacerdotes acusados que, conscientes dos crimes cometidos, pedem para ser dispensados das funções do sacerdócio e voltar ao estado laical. O Santo Padre aceita tal pedido para o bem da Igreja ("pro bono Ecclesiae").

Nos casos em que o sacerdote acusado tenha admitido seus crimes e se proposto a viver uma vida de oração e penitência, a Congregação para a Doutrina da Fé autoriza o bispo local a emitir um decreto que proíbe ou limite o ministério público de tal sacerdote.

No caso de violação das condições do decreto, não está excluída a destituição do estado clerical. A Congregação para a Doutrina da Fé conclui a nota recordando que está sendo feita a revisão de alguns artigos do Motu Proprio Sacramentorum Sanctitatis tutela 2001 a fim de atualizá-lo à luz das faculdades especiais reconhecidas pelos Pontífices João Paulo II e Bento XVI à Congregação para a Doutrina da Fé. As modificações propostas e sob discussão não mudarão as medidas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Discussão sobre a pedofilia.

O ABRAÇO DE CRISTO, MAIOR QUE AS FERIDAS.

Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis

O momento presente, marcado pela acirrada discussão sobre a pedofilia, é uma grande ocasião de purificação e de conversão da Igreja para poder comunicar com transparência a todos o abraço da justiça e da misericórdia de Deus , que é a razão pela qual ela existe.

O papa Bento XVI na Carta aos católicos na Irlanda com grande humildade e coragem afirma que: “para se recuperar desta dolorosa ferida, a Igreja na Irlanda deve em primeiro lugar reconhecer diante do Senhor e diante dos outros, os graves pecados cometidos contra jovens indefesos. Esta consciência, acompanhada de sincera dor pelo dano causado às vítimas e às suas famílias, deve levar a um esforço concentrado para garantir a proteção dos jovens em relação a semelhantes crimes no futuro”.

E aos sacerdotes e religiosos que abusaram dos jovens diz: deveis responder diante de Deus onipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos. Por isso se indica uma perspectiva que com toda clareza submete para o futuro estes crimes ao juízo dos tribunais eclesiásticos e civis.”

"Ao mesmo tempo, a justiça de Deus exige que prestemos contas das nossas ações sem nada esconder. Reconhecei abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não desespereis da misericórdia de Deus”.

E Aos bispos acrescenta que estabelecessem a verdade de quanto aconteceu no passado, tomassem todas as medidas adequadas para evitar que se repita no futuro, garantissem que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e quantos são atingidos por estes crimes abnormes.

“Deve-se admitir que foram cometidos graves erros de juízo e que se verificaram faltas de governo. Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade e eficiência. Aprecio os esforços que fizestes para remediar os erros do passado e para garantir que não se repitam. Além de pôr plenamente em prática as normas do direito canónico ao enfrentar os casos de abuso de jovens, continuai a cooperar com as autoridades civis no âmbito da sua competência. Só uma ação decidida levada em frente com total honestidade e transparência poderá restabelecer o respeito”.

Algo mais claro que isso não poderia ser dito e a natureza emblemática desta carta se aplica não apenas à Irlanda como às outras nações no mundo onde estes crimes foram cometidos manifestando o firme propósito de punir com rigor os culpados e de não esconder absolutamente nada. Mas com tudo isso a onda midiática não se declara satisfeita porque o seu objetivo é abater a autoridade moral do Papa e da Igreja. A culpa de alguns membros, uma pequena minoria, tiraria a autoridade de toda a instituição que atualmente é a única que lembra sem equívocos a voz da consciência e a defesa total da vida e da dignidade das pessoas. Quer-se atingir a Igreja em quanto tal, na sua capacidade de falar aos homens e às mulheres de nosso tempo. É claro que os mesmos que acusam são aqueles que pregam qualquer liberdade e justificam tudo em matéria de sexo.

Essa é a tentativa de eliminação da consciência do bem e do mal deixando tudo ao arbítrio do homem e do poder. E no fundo é a eliminação de Deus, não de um deus construído pelo sentimento e pelas opiniões - esta divindade é largamente acolhida pela mentalidade dominante - mas de um Deus que é diferente de nós: o Altíssimo que quis se manifestar na nossa história como companheiro e salvador. Ele já nos doou tudo, nos libertou. Não compactuou com pecado, mas o perdoou por meio de um amor muito maior. O que não se tolera em certa mentalidade dominante é a Presença de um amor total, que incide e que transforma a vida e que lembra a todos o valor objetivo da consciência moral.

A partir de pecados detestáveis de alguns membros da Igreja, a partir de faltas morais se quer destruir a origem da moral que é a presença do infinito no coração do homem que a Igreja prega e testemunha por meio do dom generoso e total de muitos seu filhos sacerdotes e religiosos.
Se chega a associar celibato e pedofilia, quando muitas sérias pesquisas científicas demonstraram que não tem a ver uma coisa com a outra e que a maioria destes delitos acontece em família. Assim se quer atingir todos os padres e negar a possibilidade de uma doação integral, isto é virgem, para Cristo e para o bem dos irmãos e irmãs.

Mas esta tentativa violenta de desmoralizar a Igreja não pode tirar a presença objetiva do bem maior que existe na História: o abraço de Cristo à humanidade ferida.

A onda midiática e gravíssimos erros não podem vencer o bem mais precioso que a Igreja tem e comunica: a esperança e a vitória da ressurreição. Esta é a fonte da qual partir novamente com humildade, transparência e rigor no serviço ao mundo de hoje.

O Papa incomoda muita gente.

Pessoas incomodadas fogem dos desafios dos ensinamentos de Jesus com as exigências do Evangelho que o Papa tem a coragem de apresentar ao mundo de hoje sem acomodações à mentalidade do tempo. Muitos procuram desacreditar o mensageiro para enfraquecer a mensagem. Ficam remexendo na lata de lixo da história para fazer propaganda dos erros cometidos por pessoas da Igreja em vinte séculos. O exemplo negativo mais citado é o Papa Alexandre VI, um homem muito ambicioso que teve três filhos no tempo que era Cardeal.
Seus inimigos cuidaram de multiplicar seus pecados.

A revista Veja chega a dizer que ele teve inúmeras amantes e filhos. Mesmo quem não acredita em tanto exagero se pergunta como foi que a Igreja sobreviveu. Desde o início, ela superou escândalos como a traição de Judas e a negação de Pedro que os evangelhos não escondem.

Um artigo da Veja desta semana apresenta de maneira tendenciosa casos de pedofilia de padres para atingir a Igreja e o Papa que teria acobertado tais abusos. Fala de dezenas de milhares de pessoas que foram agredidas física ou sexualmente por membros da Igreja na Irlanda no século passado. Botam na mesma panela com crimes de pedofilia os castigos físicos em casas de recuperação, coisa corriqueira na educação naquele tempo, especialmente nas tentativas de reeducação de jovens infratores.

A revista Veja traz acusações de um advogado de cinco homens que no tempo de meninos sofreram abusos de um padre. Diz que o padre não foi punido pelo Cardeal Ratzinger, apesar das denúncias levadas a Roma trinta anos depois. O caso é apresentado como prova que, para o Vaticano, defender os próprios interesses é mais importante que mitigar os sofrimentos das vítimas. A Veja omite o fato que a justiça civil não achou provas para condenar o malfeitor e que o padre estava tão velho e doente que já não era perigo para ninguém.

Outra prova trazida para dizer que o Papa era condescendente com padres pedófilos:

Acolhida de um padre acusado em outra diocese, no seu tempo de arcebispo de Munique. O texto omite que o padre foi acolhido para tratamento psiquiátrico. Munique tinha 1700 padres. Naquele tempo ainda não estava tão claro que pedofilia não tinha cura. Nossa diocese tem apenas 40 padres, e o bispo não tem o poder de prevenir um passo errado de algum.

Qualquer dia destes vai aparecer alguém a denunciar o próprio Jesus como culpado pela traição de Judas. Segundo o condiscípulo João, Judas já tinha precedentes de surrupiar dinheiro da caixa comum, em vez de ajudar os pobres. Por que Jesus não mandou embora o administrador corrupto? Aliás, já não falta quem diga que o próprio Deus seja culpado pelos pecados dos homens, a começar com a queda do primeiro casal, na tentação de comer do fruto proibido.

Segundo Saramago bastava que Deus fizesse uma boa cerca para impedir que chegassem perto daquela árvore atraente. Para que não pudessem pecar nem precisava fazer cerca. Bastava não criar tal árvore para evitar qualquer tentação. Ou não proibir nada. Ou não nos dar o presente perigoso da liberdade e da responsabilidade. Ou interferir com seu poder, toda vez que alguém quisesse fazer uma coisa errada. (É mole!)

Se você gosta de filosofia, tente imaginar o que você faria se estivesse no lugar de Deus. Criaria apenas robôs ou bichos programados para não poder fazer nada de mal? Seria melhor que a Igreja ainda tivesse o poder de polícia como na idade média?

A missão da Igreja é tentar educar os fiéis para a responsabilidade. Pode suspender um padre do uso de ordem, mas não pode prender ninguém.

Nem pode impedir que qualquer um se apresente como bispo, ou que igrejas fundadas no século passado se apresentem como igreja católica. Notícias de escândalos com falsos padres e bispos respingam sobre a Igreja. Quanto a práticas homossexuais, fica perigoso condenar. Podem surgir acusações de homofobia. Tempos de confusão. Tempos difíceis para o Papa e para bispos.

Perguntas aos que acusam o Papa de ter acobertado padres pedófilos:

1. Por que será que tantos ficam incomodados com os recados do Papa?
2. Por que fazem tanta propagando de coisas erradas na Igreja?
3. Por que aproveitam os casos de pedofilia de padres para acusar o Papa de falta de firmeza no trato do problema?
4. Se os juízes brasileiros têm tanta dificuldade em julgar casos atuais de corrupção que acontecem debaixo do seu nariz, como querem os julgadores do Papa que seja fácil para o Vaticano julgar casos antigos e distantes denunciados décadas depois?
5. Por que será que as denúncias sobre casos antigos de difícil verificação aumentaram tanto, quando denunciantes e seus advogados passaram a ganhar indenizações da Igreja?
6. Quantos são os incomodados com as exigências de um Papa intransigente na doutrina e na moral?
7. Querem atingir o mensageiro para enfraquecer a mensagem?

domingo, 4 de abril de 2010

CNBB: NOTA DE SOLIDARIEDADE AO PAPA BENTO XVI.

A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) expressou, numa nota, sua solidariedade ao Papa Bento XVI. O texto foi ao ar através das TVs Católicas de todo o Brasil na noite desta quarta-feira, 31 de março, às 19h, em cadeia nacional, proferido pelo Presidente da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana (MG).

Segue a nota da CNBB.

O povo católico de todo o mundo acompanha, com profunda dor no coração, as denúncias de inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes praticado por pessoas ligadas à Igreja, particularmente padres e religiosos. A imprensa tem noticiado com insistência incomum, casos acontecidos nos Estados Unidos, na Alemanha, na Irlanda, e também no Brasil.
Sem temer a verdade, o Papa Bento XVI não só reconheceu publicamente esses graves erros de membros da Igreja, como também pediu perdão por eles. Disso nos dá testemunho a carta pastoral que o Santo Padre enviou aos católicos da Irlanda e que pode se estender aos católicos de todo o mundo. Mais do que isso, Bento XVI não receou manifestar seu constrangimento e vergonha diante desses atos que macularam a própria Igreja. Firme, o Papa condenou a atitude dos que conduziram tais casos de maneira inadequada e, com determinação, afirmou que os envolvidos devem ser julgados pelos tribunais de justiça. Não faltou ao Papa, também, mostrar a todos o horizonte da misericórdia de Deus, a única capaz de ajudar a pessoa humana a superar seus traumas e fracassos.Às vítimas o Papa expressou ter consciência do mal irreparável a que foram submetidas. Disse Bento XVI:

“Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. É compreensível que vos seja difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos”.

Essa coragem do Sucessor de Pedro nos coloca a todos em estado de alerta. Meditamos sobre esses atos objetivamente graves, e estamos certos de que – como fez o Papa – devem ser enfrentados com absoluta firmeza e coragem.

É de se lamentar, no entanto, que a divulgação de notícias relativas a esses crimes injustificáveis se transforme numa campanha difamatória contra a Igreja Católica e contra o Papa. Deixam-nos particularmente perplexos os ataques freqüentes e sistemáticos, ao Papa Bento XVI, como se o então Cardeal Ratzinger tivesse sido descuidado diante dessa prática abominável ou com ela conivente. No entanto, uma análise objetiva dos fatos e depoimentos dos próprios envolvidos nos escândalos revela a fragilidade dessas acusações. O Papa, ao reconhecer publicamente os erros de membros da Igreja e ao pedir perdão por esta prática, não merecia esse tratamento, que fere, também, grande parte do povo brasileiro, que sofre com esses momentos difíceis, e reza pelas vítimas e seus familiares, pelos culpados, mas também pelas dezenas de milhares de sacerdotes que, no mundo todo, procuram honrar sua vocação.

De fato, “a imensa maioria de nossos sacerdotes não está envolvida nesta problemática gravemente condenável. Provavelmente, não chegam a 1% os envolvidos. Ao contrário, os demais 99% de nossos sacerdotes, de modo geral, são homens de Deus, dignos, honestos e incansáveis na doação de todas as suas energias ao seu ministério, à evangelização, em favor do povo, especialmente a serviço dos pobres e dos marginalizados, dos excluídos e dos injustiçados, dos desesperados e sofridos de todo tipo” (cf. Cardeal Cláudio Hummes, 12ºENP).

No momento em que a Igreja Católica e a própria pessoa do Santo Padre sofrem duros e injustos ataques, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil manifesta sua mais profunda união com o Papa Bento XVI e sua plena adesão e total fidelidade ao Sucessor de Pedro. A Páscoa de Cristo, que celebramos nesta semana, nos leva a afirmar com o apóstolo Paulo: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados” (2Cor 4,8-9). Nossa fé nos garante a certeza da vitória da luz sobre as trevas; do bem sobre o mal; da vida sobre a morte.

Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana / Presidente da CNBB,
Dom Luiz Soares Vieira, Arcebispo de Manaus / Vice Presidente da CNBB,
Dom Dimas Lara Barbosa, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro / Secretário-Geral da CNBB.

CELAM MANIFESTA SOLIDARIEDADE AO PAPA BENTO XVI.

O Presidente do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), Dom Raymundo Damasceno Assis, Arcebispo de Aparecida, expressa em nome desse organismo sua solidariedade ao Santo Padre neste momento em que a Igreja Católica e a própria pessoa do Santo Padre sofrem duros e injustos ataques relativos a abusos sexuais. A seguir, apresentamos, na íntegra, a nota de solidariedade da presidência do CELAM ao Santo Padre Bento XVI:

Desde algum tempo têm aparecido com certa freqüência nos meios de comunicação social notícias sobre abusos sexuais contra crianças e adolescentes praticados por alguns membros do clero. Recentemente, o Santo Padre publicou carta dirigida à Igreja na Irlanda manifestando profunda dor e mesmo vergonha pelos abusos sexuais de crianças cometidos por religiosos daquele país.
Ao ensejo da publicação de notícias sobre o assunto, alguns meios de comunicação têm procurado atingir indiretamente o Santo Padre. Ao contrário do que alguns setores da imprensa têm publicado, a atitude do então Cardeal Ratzinger em relação a casos de abusos sexuais praticados por alguns membros do clero sempre foi muito firme, como o comprovam depoimentos de pessoas que com ele trabalharam, tendo demonstrado, nestes casos, sempre grande coragem ao enfrentá-los. Portanto, é falsa e caluniosa qualquer insinuação que se venha a fazer de que o atual Pontífice tenha, naquele período, ocultado casos de abusos sexuais ou tenha sido condescendente com seus autores.

Diante da repercussão de tais noticias infundadas, o Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM - manifesta solidariedade ao Santo Padre Bento XVI, unindo-se a ele em oração. O CELAM, nesta oportunidade, felicita sua Santidade pela Carta dirigida à Igreja irmã na Irlanda, na qual transmite - sobre as questões de que trata - clara, justa e exigente orientação, acompanhada de um apelo a uma confiança humilde na condução misericordiosa com a qual o Senhor dirige a Sua Igreja.

O Conselho Episcopal Latino-Americano ressalta, por oportuno, que levará em conta as orientações de Sua Santidade, tornando-as tema de constante preocupação.No contexto da Semana Santa que estamos vivendo, o CELAM se dirige ao Deus da História suplicando que Ele nos permita recordar e partilhar mais de perto o que o Senhor sofreu pelo pecado também do mundo contemporâneo, abrindo, para todos, por meio de Sua entrega única ao plano do Pai, a novidade da vida verdadeira e definitiva. As agressões injustas que Sua Santidade tem sofrido nos levam à contemplação do Cristo, que morreu de forma tão incompreensível na Sexta-Feira Santa, e à união com a Virgem Maria, no silêncio de sua dor no Sábado Santo, na certeza da participação na Vida do Ressuscitado para sermos, cada vez mais, Seus fiéis discípulos missionários. Asseguramos a Sua Santidade nossa comunhão e afeto.

Dom Raymundo Damasceno Assis / Arcebispo de Aparecida, SP.
Presidente do CELAM.
31/03/2010

SOLIDARIEDADE DOS MÉDICOS CATÓLICOS AO PAPA.

A Federação Internacional de Associações de Médicos Católicos (FIAMC) emitiu uma nota de imprensa na qual expressa seu rechaço à “fúria” com que diversos meios em vários países do mundo estão atacando o Papa Bento XVI e a Igreja Católica, tomando como justificativa alguns casos de abusos sexuais cometidos por membros do clero.O texto assinado pelo Presidente da Federação, Dr. Jose Maria Simón Castellví, assinala que “a responsabilidade dos eclesiásticos individualmente, e eventualmente de seus superiores diretos, é estendida a toda a Igreja, e não faltam tampouco tentativas de interpretar tais abusos como inevitável conseqüência dos princípios do magistério, da concepção do ministério sacerdotal e da moral católica”.

Para os médicos católicos “esta campanha midiática suscita a suspeita de que grupos editoriais, e os centros de poder que os sustentam, querem desacreditar a autoridade da Igreja, que é a voz mais consciente na defesa da vida desde a concepção até a morte natural, na defesa da família e a moral sexual católica tradicional, e na defesa do gênero humano perante perigosas aventuras no campo da genética”.

“Já foram vistas claras condenações dos casos de abuso sexual, mas também se deixou claro que não é possível nem legítimo atribuir a responsabilidade deles à Igreja Católica”, prossegue.

Finalmente a FIAMC “manifesta sua plena solidariedade ao Santo Padre”.

Reforma de Bento XVI: inovação e tradição na liturgia.

Em julho de 2007, com o motu proprio “Summorum Pontificum”, Bento XVI restabeleceu a celebração da Missa segundo o rito tridentino. O fato suscitou uma agitação. Elevaram-se vibrantes vozes de protesto, mas também aclamações valentes.

Para explicar o sentido e a prática da reforma litúrgica de Bento XVI, Nicola Bux, sacerdote e especialista em liturgia oriental, além de consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, publicou o livro La riforma di Benedetto XVI.

La liturgia tra innovazione e tradizione (Piemme, Casale Monferrato 2008), com prólogo de Vittorio Messori.

No livro, o especialista explica que a recuperação do rito latino não é um retrocesso, uma volta à época anterior ao Concílio Vaticano II, mas sim um olhar adiante, recuperando da tradição passada o mais belo e significativo que esta pode oferecer à vida presente da Igreja.

Segundo Bux, o que o Pontífice pretende fazer em sua paciente obra de reforma é renovar a vida do cristão, os gestos, as palavras, o tempo cotidiano, restaurando na liturgia um sábio equilíbrio entre inovação e tradição, fazendo surgir, com isso, a imagem de uma Igreja sempre em caminho, capaz de refletir sobre si mesma e de valorizar os tesouros dos quais é rico seu depósito milenar.
Para tentar aprofundar no significado e no sentido da liturgia, em suas mudanças, na relação com a tradição e no mistério da linguagem com Deus, Zenit entrevistou Nicola Bux.

-O que é a liturgia e por que ela é tão importante para a Igreja e para o povo cristão?

Bux: A sagrada liturgia é o tempo e o lugar no qual certamente Deus vai ao encontro do homem. Portanto, o método para entrar em relação com Ele é precisamente o de dar-lhe culto: Ele nos fala e nós lhe respondemos; agradecemos e Ele se comunica conosco. O culto, do latim colere – cultivar uma relação importante –, pertence ao sentido religioso do homem, em toda religião, desde os tempos mais remotos. Para o povo cristão, a sagrada liturgia e o culto divino realizam, portanto, a relação com tudo o que existe de mais querido, Jesus Cristo Deus. O atributo “sagrada” significa que nela tocamos sua presença divina. Por isso, a liturgia é a realidade e a atividade mais importantes para a Igreja.

-Em que consiste a reforma de Bento XVI e por que ela suscitou tantas reações?

Bux: A reforma da liturgia, segundo a constituição litúrgica do Concílio Vaticano II, como instauratio, isto é, como restabelecimento no lugar correto da vida eclesial, não começa com Bento XVI, mas com a própria história da Igreja, desde os apóstolos à época dos mártires, do Papa Dâmaso até Gregório Magno, de Pio V e Pio X a Pio XII e Paulo VI. A instauratio é contínua, porque o risco de que a liturgia decaia do seu lugar, que é o de ser fonte da vida cristã, existe sempre; a decadência chega quando o culto divino é submetido ao sentimentalismo e ao ativismo pessoais de clérigos e leigos que, penetrando-o, transformam-no em obra humana e entretenimento espetacular: um sintoma hoje é, por exemplo, o aplauso na Igreja, que sublinha indistintamente o batismo de um recém-nascido e a saída de um caixão em um funeral.
Uma liturgia convertida em entretenimento não precisa de uma reforma? Isso é o que Bento XVI está fazendo: o emblema da sua obra reformadora será o restabelecimento da cruz no centro do altar, para fazer compreender que a liturgia está dirigida ao Senhor e não ao homem, ainda que este seja ministro sagrado. A reação existe sempre em cada mudança na história da Igreja, mas não é preciso assustar-se.

-Quais são as diferenças entre os chamados inovadores e os tradicionalistas?

Bux: Estes dois termos devem antes ser esclarecidos. Se inovar significa favorecer a instauratio da qual falávamos, é precisamente o que está faltando; assim também quanto à traditio, que significa proteger o depósito revelado, sedimentado também na liturgia. Se, no entanto, inovar significa transformar a liturgia de obra de Deus em ação humana, oscilando entre um gosto arcaico, que quer conservar dela somente os aspectos que agradam, e um conformismo segundo a moda do momento, estaríamos no mau caminho. Ou ao contrário: ser conservadores de tradições meramente humanas, que se sobrepuseram como incrustação na pintura e não permitem que percebamos a harmonia do conjunto. Na verdade, os dois opostos acabam coincidindo, revelando sua contradição. Um exemplo: os inovadores sustentam que a Missa antigamente era celebrada dirigida ao povo. Os estudos demonstram o contrário: a orientação ad Deum, ad Orientem, é a própria do culto do homem a Deus. Pensemos no judaísmo. Ainda hoje, todas as liturgias orientais conservam isso. Como é possível que os inovadores, amantes da restauração dos elementos antigos na liturgia pós-conciliar, não o tenham conservado?

-Que significado tem a tradição na história e na fé cristãs?

Bux: A tradição é uma das fontes da Revelação: a liturgia, como diz o Catecismo (n. 1124), é seu elemento constitutivo. Bento XVI, no livro “Jesus de Nazaré”, recorda que a Revelação se tornou liturgia. Depois, temos as tradições de fé, de cultura, de piedade que entraram e revestiram a liturgia, de maneira que conhecemos várias formas de ritos no Oriente e no Ocidente. Todos compreendem, portanto, por que a constituição sobre liturgia, no n. 22, § 3, afirma peremptoriamente: “Ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica”.

-Você acha que seria possível voltar à Missa em latim hoje?

Bux: O Missal Romano renovado por Paulo VI está em latim e constitui a edição chamada típica, porque a ela devem se referir as edições em línguas atuais preparadas pelas conferências episcopais nacionais e territoriais, aprovadas pela Santa Sé. Portanto, a Missa em latim continuou sendo celebrada também com o novo Ordo, ainda que raramente. Isso acabou contribuindo para a impossibilidade de uma assembleia composta de línguas e nações participar de uma Missa celebrada na língua sagrada universal da Igreja Católica de rito latino. Assim, em seu lugar, nasceram as chamadas Missas internacionais, celebradas de forma que as partes da celebração sejam recitadas ou cantadas em muitas línguas; assim, cada grupo entende somente a sua!
Havia-se mantido que o latim não era entendido por ninguém; agora, se a Missa em um santuário é celebrada em quatro idiomas, cada grupo acaba compreendendo apenas 25% dela. Além de outras considerações, como desejou o sínodo de 2005 sobre a Eucaristia, é preciso voltar à Missa em latim: pelo menos uma dominical nas catedrais e nas paróquias. Isso ajudará, no convite à sociedade multicultural atual, a recuperar a participação católica, seja quanto a sentir-se Igreja universal, seja quanto a unir-se a outros povos e nações que compõem a única Igreja. Os cristãos orientais, ainda dando espaço às línguas nacionais, conservaram o grego e o eslavo eclesiástico nas partes mais importantes da liturgia, como a anáfora e as procissões com as antífonas para o Evangelho e o ofertório. Para instaurar tudo isso, contribui enormemente o antigo Ordo do Missal Romano anterior, restabelecido por Bento XVI com o motu proprio “Summorum Pontificum”, que, simplificando, chama-se Missa em latim: na verdade, é a Missa de São Gregório Magno, enquanto sua estrutura básica se remonta à época desse pontífice e permaneceu intacta através dos acréscimos e simplificações de Pio V e dos demais pontífices até João XXIII. Os padres do Vaticano II a celebraram diariamente, sem advertir nenhuma oposição com relação à modernização que estavam realizando.

-Bento XVI falou do problema dos abusos litúrgicos. De que se trata?

Bux: Para dizer a verdade, o primeiro em lamentar as manipulações na liturgia foi Paulo VI, poucos anos depois da publicação do Missal Romano, na audiência geral de 22 de agosto de 1973. Paulo VI, por outro lado, estava certo de que a reforma litúrgica realizada após o Concílio verdadeiramente havia introduzido e sustentado firmemente as indicações da constituição litúrgica (cf. Discurso ao Colégio dos Cardeais, 22 de junho de 1973). Mas a experimentação arbitrária continuava e exacerbava, no entanto, a saudade do rito antigo.

O Papa, no consistório de 27 de junho de 1977, admoestava os “rebeldes” pelas improvisações, banalidades, frivolidades e profanações, pedindo-lhes severamente que se ativessem à norma estabelecida para não comprometer a regula fidei, o dogma, a disciplina eclesiástica, lex credendi e orandi; e também aos tradicionalistas, para que reconhecessem a “acidentalidade” das modificações introduzidas nos ritos sagrados.

Em 1975, a bula Apostolorum Limina, de Paulo VI, para a convocação do ano santo, a propósito da renovação litúrgica, observava: “Consideramos extremamente oportuno que esta obra seja reexaminada e receba novas evoluções, de forma que, baseando-se no que foi firmemente confirmado pela autoridade da Igreja, possa-se observar em todos os lugares os que são verdadeiramente válidos e legítimos e continuar sua aplicação com zelo ainda maior, segundo as normas e métodos aconselhados pela prudência pastoral e por uma verdadeira piedade”.
Omito as denúncias de abusos e sombras na liturgia por parte de João Paulo II em muitas ocasiões, em particular na carta Vicesimus quintus annus, desde a entrada em vigor da constituição sobre liturgia. Bento XVI, portanto, pretendeu voltar a examinar e dar novo impulso precisamente abrindo uma janela com o motu proprio, para que, pouco a pouco, mude o ar e encarrilhe tudo o que foi além da intenção e da letra do Concílio Vaticano II, em continuidade com toda a tradição da Igreja.

-Você afirmou diversas vezes que, em uma liturgia correta, é necessário respeitar os direitos de Deus. Você poderia explicar isso?

Bux: A liturgia, termo que em grego indica a ação ritual de um povo que celebra, por exemplo, suas festas, como acontecia em Atenas ou como acontece ainda hoje com a inauguração das olimpíadas e outras manifestações civis, evidentemente é produzida pelo homem. A sagrada liturgia ostenta este atributo porque não está feita à nossa imagem – em tal caso, o culto seria idolátrico, isto é, criado pelas nossas mãos –, mas pelo Senhor onipotente: no Antigo Testamento, com sua presença, indicava a Moisés como ele deveria dispor, nos seus mínimos detalhes, o culto ao Deus único, junto ao seu irmão Aarão.
No Novo Testamento, Jesus defendeu o verdadeiro culto, expulsando os vendedores do templo, e deu aos apóstolos as disposições para a Ceia pascal. A tradição apostólica recebeu e relançou o mandato de Jesus Cristo. Portanto, a liturgia é sagrada, como diz o Ocidente, e é divina, como diz o Oriente, porque é instituída por Deus. São Bento a define como opus dei, obra de Deus, à qual nada deve ser anteposto. Precisamente a função mediadora entre Deus e o homem, própria do sumo sacerdócio de Cristo e exercida na e com a liturgia pelo sacerdote ministro da Igreja, testifica que a liturgia descende do céu, como diz a liturgia bizantina, baseada na imagem do Apocalipse. É Deus quem a estabelece e, portanto, indica como devemos adorá-lo “em espírito e em verdade”, isto é, em Jesus, seu Filho, e no Espírito Santo. Ele tem o direito de ser adorado como Ele quer. Sobre tudo isso, é necessária uma profunda reflexão, porque seu esquecimento está na origem dos abusos e das profanações, já descritas admiravelmente em 2004 pela instrução Redemptionis Sacramentum, da Congregação para o Culto Divino. A recuperação do Ius divinum na liturgia contribui muito para respeitá-la como coisa sagrada, como prescreviam as normas; mas também as normas devem voltar a ser seguidas com espírito de devoção e obediência por parte dos ministros sagrados, para edificação de todos os fiéis e para ajudar muitos dos que buscam Deus a encontrá-lo vivo e verdadeiro no culto divino da Igreja.

Os bispos, sacerdotes e seminaristas devem voltar a aprender e realizar os sagrados ritos com este espírito, e assim contribuirão para a verdadeira reforma querida pelo Vaticano II e, sobretudo, para reavivar a fé que, como escreveu o Santo Padre na carta aos bispos, de 10 de março de 2009, corre o risco de apagar-se em muitos lugares do mundo.

New York Times se desmente em seus ataques contra o Papa.

Reconstrução dos fatos oferecida por Riccardo Cascioli em “Avvenire”.

A documentação publicada pelo New York Times desmente a tese segunda a qual o cardeal Joseph Ratzinger não teria sido suficientemente enérgico ao gerenciar o caso de um sacerdote norte-americano culpado pelo abuso de várias crianças.

Essa é a conclusão do jornalista italiano Riccardo Cascioli, ao analisar o episódio, em um artigo do dia 26 de março no jornal Avvenire, que apresentamos a seguir.

Tudo começa no dia 15 de maio de 1974, quando um ex-estudante da St. John’s School para surdos apresenta uma denúncia sobre os abusos realizados sobre ele e sobre outros cinco meninos por Lawrence Murphy, entre 1964 e 1970, mas – segundo se publicou – após uma investigação, o juiz encarregado arquiva o caso. A diocese de Milwaukee, em contrapartida, afasta em seguida o padre Murphy, com uma permissão temporária por motivos de saúde (até novembro de 1974), que no entanto se converte em definitiva. Uma carta da diocese de Superior em 1980 explica que Murphy vive em Bounder Junction (Wisconsin), na casa de sua mãe, ainda que continuasse exercendo o ministério sacerdotal ajudando o pároco local.

Enquanto isso, não obstante, as denúncias junto à diocese de Milwaukee se multiplicam e, entre julho e dezembro de 1993, Murphy é submetido a quatro longos interrogatórios por responsáveis da arquidiocese, acompanhados por psicólogos especialistas em pedofilia. Surge daí um quadro clínico de “pedófilo típico”, em que se recomenda um tratamento psicológico para maníacos sexuais e também um acompanhamento pastoral/espiritual, ademais de uma restrição da atividade ministerial. Do informe dos interrogatórios se desprende que havia 29 denúncias de menores: Murphy admite “contatos” só com 19 das crianças implicadas. Dos documentos sucessivos, tem-se a demonstração de que a arquidiocese de Milwaukee prossegue suas investigações, tentado precisar a realidade e a magnitude dos fatos, e a 17 de julho de 1996, o bispo Rembert Weakland escreve então ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, pedindo uma luz sobre o caso de Murphy e sobre outro – não relacionado – de outro sacerdote, acusado de crimes sexuais e financeiros.

Dom Weakland faz referência à denúncia de 1974, e explica que só recentemente teve conhecimento do fato de que certos crimes sexuais ocorreram durante o sacramento da Confissão, pelo que havia encarregado oficialmente um sacerdote da diocese, James Connell, de realizar uma investigação em profundidade (o decreto é de dezembro de 1995).
Um obstáculo à verificação dos fatos – afirma Dom Weakland – procede da compreensível reticência dos meninos e da comunidade da St John’s School em fazer públicas as circunstâncias embaraçosas. Dom Weakland se dirige à Congregação para a Doutrina da Fé para pedir um esclarecimento sobre a jurisdição neste caso de “crime de solicitação” (cânon 1387) , e se é competência da diocese ou da Congregação.

Dos sucessivos documentos, parece que a carta não chegou nunca à mesa do cardeal Ratzinger e do então monsenhor Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé. Em todo caso, diante da falta de uma resposta, a arquidiocese de Milwaukee seguiu adiante seu caminho e, a 10 de dezembro de 1996, informa a Murphy que no dia 22 de novembro tinha sido aberto um procedimento penal eclesiástico contra ele com um tribunal criado ad hoc. O pedido da acusação é a “expulsão de Murphy do estado clerical”.

O problema que se estabelece, no entanto, é o da prescrição dos crimes cometidos, pelo que, segundo a norma do direito canônico, não se poderia proceder à expulsão. Mas o arcebispo de Milwaukee tem intenção de conseguir uma revogação do cânon, tendo em conta a situação física e psicológica das vítimas. Sua intenção foi aceita depois por monsenhor Betone, na carta de 24 de março de 1997. No final de 1997, o processo passa à diocese de Superior, mas o presidente do tribunal continua sendo o mesmo de Milwaukee, Thomas Brundage.

Dos documentos apresentados pelo New York Times mostra-se claramente a intenção das autoridades eclesiásticas de Milwaukee e Superior de proceder da forma mais rápida possível para chegar a um ato de justiça e de reparação para as vítimas e a comunidade da St John’s School.

Enquanto isso, Murphy escreve uma carta ao cardeal Ratzinger (12 de janeiro de 1998), pedindo a anulação do processo contra ele, porque a Instrução de 1962 prevê, para começar a ação penal, um prazo de 30 dias desde o momento em que se apresenta a acusação. Murphy afirma, ademais, que – além de estar arrependido – está gravemente enfermo e vive retirado há 24 anos. Pede que ao menos não seja expulso do estado clerical.

A 6 de abril de 1998, monsenhor Bertone escreve a Dom Fliss, bispo de Superior, em nome da Congregação para a Doutrina da Fé, explicando que – após ter examinado atentamente o caso – não existe um prazo para a ação penal tal e como afirmava Murphy, por isso, o processo pode continuar, ainda que – acrescenta Bertone – há que ter em conta o artigo 1341 do Código de Direito Canônico, segundo o qual uma sanção penal deve ser aplicada só após se ter constatado que não seja “possível obter de modo suficiente a reparação do escândalo, o restabelecimento da justiça e a correção do culpado” com outro meios.

Dom Fliss responde a 13 de maio a monsenhor Bertone, afirmando que, conforme ao que indica a Congregação, é necessário um processo contra Murphy, tendo em conta a gravidade do escândalo e a grande dor infligida na comunidade católica da St John’ School.

Chega-se portanto a 30 de maio, quando no Vaticano há um encontro entre monsenhor Bertone, o subsecretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Gianfranco Girotti, e os prelados norte-americanos afetados pela questão. Da ata do encontro se desprende que na Congregação há dúvidas sobre a possibilidade e a oportunidade do processo canônico, dada a dificuldade de reconstruir os fatos ocorridos 35 anos antes, sobretudo no que diz respeito ao crime no confessionário, e dado que não existem outras acusações de 1974 adiante. Bertone, portanto, como conclusão do encontro, resume as duas linhas fundamentais que aplicar: uma restrição territorial para o ministério sacerdotal (na prática Murphy deve ficar em Superior) e uma ação decidida para obter o arrependimento do sacerdote, incluída a ameaça de “expulsão do estado clerical”.

O bispo de Milwaukee escreve ainda a 19 de agosto a monsenhor Bertone para colocá-lo a par das medidas tomadas para levar a cabo as linhas indicadas pela Congregação, e informá-lo do fato de que sua diocese seguirá a cargo dos custos para apoiar as terapias às vítimas dos abusos sexuais.

A 21 de agosto, Murphy morre, encerrando definitivamente o caso.

PAPA: PÁSCOA NÃO CURA ANGÚSTIAS DA IGREJA, MAS ABRE AO FUTURO.

Do patamar da Basílica de São Pedro, o Papa celebrou a Missa de Páscoa, a festa mais importante do Cristianismo, que celebra a ressurreição de Cristo depois da morte na Cruz. Bento XVI concedeu a bênção "Urbi et orbi" (à cidade e ao mundo), transmitida ao vivo pelas emissoras de televisão de vários países do mundo. As 40 mil pessoas presentes na Praça não se desanimaram com a persistente chuva e ouviram com atenção as palavras do Papa, em sua tradicional mensagem de Páscoa. Bento XVI afirmou que “a humanidade atravessa uma crise profunda, que requer mudanças profundas, a partir das consciências; uma espécie de êxodo, de conversão espiritual e moral”.

“O Evangelho revelou-nos o cumprimento das figuras antigas: com a sua morte e ressurreição, Jesus Cristo libertou o homem da escravidão radical, a do pecado, e abriu-lhe a estrada para a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Deus, Reino universal de justiça, de amor e de paz. Este «êxodo» verifica-se, antes de mais nada, no íntimo do próprio homem e consiste num novo nascimento no Espírito Santo, é princípio duma libertação integral, capaz de renovar toda a dimensão humana, pessoal e social”.

O Papa também pediu e fez orações pela paz na Terra Santa e pelo fim dos crimes ligados ao tráfico de drogas na América Latina e no Caribe. Encorajou os povos do Haiti e do Chile, atingidos pelo terremoto, e apelou à comunidade internacional para que não deixe de enviar ajudas. O pensamento de Bento XVI foi também à África, e de modo especial, ao Congo, à Guiné e Nigéria, para que terminem os conflitos que continuam a provocar destruições e sofrimento e se obtenham paz e reconciliação, garantias de desenvolvimento.

O Papa referiu-se também aos cristãos que em função de sua fé sofrem perseguições e são até mesmo mortos, como no Paquistão, e aos que vivem em meio a provações e sofrimentos, como no Iraque. Aos países assolados pelo terrorismo e pelas discriminações sociais ou religiosas, o Pontífice recomendou que favoreçam o diálogo e a convivência serena e o desenvolvimento de uma economia solidária:

“Aos responsáveis de todas as Nações, a Páscoa de Cristo traga luz e força para que a atividade econômica e financeira seja finalmente orientada segundo critérios de verdade, justiça e ajuda fraterna”.

Concluindo sua Mensagem “Urbi et orbi”, o Papa disse que Páscoa não efetua magias:

“Assim como, para além do Mar Vermelho, os hebreus encontraram o deserto, assim também a Igreja, depois da Ressurreição, encontra sempre a história com as suas alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias. E, todavia esta história mudou, está marcada por uma aliança nova e eterna, está realmente aberta ao futuro. Salvos na esperança, prosseguimos a nossa peregrinação, levando no coração o cântico antigo e sempre novo: «Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!»".

Após a leitura da mensagem, Bento XVI saudou os fiéis, que a este ponto somavam cem mil – segundo a Polícia romana – em 65 línguas, 2 a mais do que no ano passado: islandês e cazaque. Em seguida, concedeu a todos os que participaram, pessoalmente ou através do rádio ou TV, a benção pascal, com a indulgência plenária.

Mensagem e Bênção "Urbi et Orbi".

Queridos irmãos e irmãs!

Transmito-vos o anúncio da Páscoa com estas palavras da Liturgia, que repercutem o antiquíssimo hino de louvor dos hebreus depois da travessia do Mar Vermelho. Conta o Livro do Éxodo (cf. 15, 19-21) que, depois de atravessarem o mar enxuto e terem visto os egípcios submersos pelas águas, Miriam – a irmã de Moisés e Aarão – e as outras mulheres entoaram, dançando, este cântico de exultação:

«Cantai ao Senhor que Se revestiu de glória. Precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro!»

Por todo o mundo, os cristãos repetem este cântico na Vigília Pascal, cujo significado é depois explicado na respectiva oração; uma oração que agora, na plena luz da Ressurreição, jubilosamente fazemos nossa:

«Também em nossos dias, Senhor, vemos brilhar as vossas antigas maravilhas: se outrora manifestastes o vosso poder libertando um só povo da perseguição do Faraó, hoje assegurais a salvação de todas as nações fazendo-as renascer pela água do Baptismo: fazei que todos os povos da terra se tornem filhos de Abraão e membros do vosso povo eleito».

O Evangelho revelou-nos o cumprimento das figuras antigas: com a sua morte e ressurreição, Jesus Cristo libertou o homem da escravidão radical, a do pecado, e abriu-lhe a estrada para a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Deus, Reino universal de justiça, de amor e de paz.

Este «êxodo» verifica-se, antes de mais nada, no íntimo do próprio homem e consiste num novo nascimento no Espírito Santo, efeito do Baptismo que Cristo nos deu precisamente no mistério pascal. O homem velho cede o lugar ao homem novo; a vida anterior é deixada para trás, pode-se caminhar numa vida nova (cf. Rm 6, 4).

Mas o «êxodo» espiritual é princípio duma libertação integral, capaz de renovar toda a dimensão humana, pessoal e social. Sim, irmãos, a Páscoa é a verdadeira salvação da humanidade! Se Cristo – o Cordeiro de Deus – não tivesse derramado o seu Sangue por nós, não teríamos qualquer esperança, o destino nosso e do mundo inteiro seria inevitavelmente a morte.

Mas a Páscoa inverteu a tendência: a Ressurreição de Cristo é uma nova criação, como um enxerto que pode regenerar toda a planta. É um acontecimento que modificou a orientação profunda da história, fazendo-a pender de uma vez por todas para o lado do bem, da vida, do perdão. Somos livres, estamos salvos! Eis o motivo por que exultamos do íntimo do coração: «Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!»

O povo cristão, saído das águas do Batismo, é enviado por todo o mundo a testemunhar esta salvação, a levar a todos o fruto da Páscoa, que consiste numa vida nova, liberta do pecado e restituída à sua beleza original, à sua bondade e verdade. Continuamente, ao longo de dois mil anos, os cristãos – especialmente os santos – fecundaram a história com a experiência viva da Páscoa. A Igreja é o povo do êxodo, porque vive constantemente o mistério pascal e espalha a sua força renovadora em todo o tempo e lugar. Também em nossos dias a humanidade tem necessidade de um «êxodo», não de ajustamentos superficiais, mas de uma conversão espiritual e moral. Necessita da salvação do Evangelho, para sair de uma crise que é profunda e, como tal, requer mudanças profundas, a partir das consciências.

Peço ao Senhor Jesus que, no Médio Oriente e de modo particular na Terra santificada pela sua morte e ressurreição, os Povos realizem um verdadeiro e definitivo «êxodo» da guerra e da violência para a paz e a concórdia. Às comunidades cristãs que conhecem provações e sofrimentos, especialmente no Iraque, repita o Ressuscitado a frase cheia de consolação e encorajamento que dirigiu aos Apóstolos no Cenáculo: «A paz esteja convosco!» (Jo 20,21).

Para os países da América Latina e do Caribe que experimentam uma perigosa recrudescência de crimes ligados ao narcotráfico, a Páscoa de Cristo conceda a vitória da convivência pacífica e do respeito pelo bem comum. A dilecta população do Haiti, devastado pela enorme tragédia do terremoto, realize o seu «êxodo» do luto e do desânimo para uma nova esperança, com o apoio da solidariedade internacional. Os amados cidadãos chilenos, prostrados por outra grave catástrofe mas sustentados pela fé, enfrentem com tenacidade a obra de reconstrução.
Na força de Jesus ressuscitado, ponha-se fim em África aos conflitos que continuam a provocar destruição e sofrimentos e chegue-se àquela paz e reconciliação que são garantias de desenvolvimento. De modo particular confio ao Senhor o futuro da República Democrática do Congo, da Guiné e da Nigéria. O Ressuscitado ampare os cristãos que, pela sua fé, sofrem a perseguição e até a morte, como no Paquistão. Aos países assolados pelo terrorismo e pelas discriminações sociais ou religiosas, conceda Ele a força de começar percursos de diálogo e serena convivência. Aos responsáveis de todas as Nações, a Páscoa de Cristo traga luz e força para que a atividade económica e financeira seja finalmente orientada segundo critérios de verdade, justiça e ajuda fraterna.

A força salvífica da ressurreição de Cristo invada a humanidade inteira, para que esta supere as múltiplas e trágicas expressões de uma «cultura de morte» que tende a difundir-se, para edificar um futuro de amor e verdade no qual toda a vida humana seja respeitada e acolhida.

Queridos irmãos e irmãs!
A Páscoa não efetua qualquer magia. Assim como, para além do Mar Vermelho, os hebreus encontraram o deserto, assim também a Igreja, depois da Ressurreição, encontra sempre a história com as suas alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias.
E todavia esta história mudou, está marcada por uma aliança nova e eterna, está realmente aberta ao futuro.